Na semana que vem temos jantar. Com amigos. Meus. Aqui em casa. Não te importas? Não, disse eu. Nesse dia alterámos rotinas. Corremos atrás do bem-receber e terminámos quando a porta se abriu aos primeiros convidados. No fim, não ficou nada. Andaremos adormecidos? Incapazes de nos abrirmos aos outros? Criarmos amizades? Quem somos e porque não ouvimos? Porque não despendemos um segundo que seja a seguir o outro, a ouvi-lo, só isso? Porque nos adormecemos até para a vida? Somos mortos-vivos..
Uma mesa de jantar cheia de gente, a falarem uns por cima dos outros, interrompidos de quando em vez com a atenção virada para alguém que fala, a ouvirmos, por uma única vez, mas nada que nos aproxime, que nos deixe por dentro. Uma mesa, tanta gente, tão pouco humanos, todos iguais, todos submersos na aflição de viver, todos à procura de um ouvido. Tanta mesa, tão cheio e algumas horas mais tarde já nada tem. Pensei. E no segundo seguinte terminava a tarefa daquele serão tão ligeiramente passado no meio de humanos. No segundo seguinte a casa modificou-se. Voltou ao que era. Até o gato regressou. Nada ficou. Ninguém. Se não acontecesse este jantar a vida rolaria sem qualquer reticência, exactamente do mesmo modo que até aqui.
Essa é a terrível verdade da maioria dos acontecimentos. Não têm história. Até que um nos salta à vista. Sem querer, somos vida de repente. Ou porque nos apaixonamos, ou porque conhecemos alguém com quem tivemos uma conversa esclarecedora, ou porque nos convidaram para um lugar que ambicionávamos, ou porque preenchemos um sonho infantil, ou porque reencontramos. O que fica, o que é perene nesta vida afinal?
Ter-me entrado e comentado no meu blogue permitiu-me conhecer uma escrita que me agradou. Parabéns, e obrigada.
Obrigado eu.
10 pessoas ao jantar cada uma com a sua agenda, que se vai explicitando em pulsos ao longo do texto.