quem somos

isto é um fluxo de vida, um chegar permanente, minuto a minuto, a um presente que pode ser um mescla de situações. Se olhasse para ti veria uma mescla de outras vidas e tu és essa mescla, tu és fatias de outros que também são fatias, ou melhor, conjunto de fatias que também são tuas. Isto porque vivemos todos mais ou menos as mesmas situações, mas em tempo diferentes e passamos por lugares diferentes, experiências diferentes. Tu significa que tens um conjunto de fatias de vida diferente de outros. Mais um pouco à frente, tu és a tua rede neuronal, um conjunto de conexões neuronais que te fazem tu mas que outros também viveram, em contextos diferentes, em tempos diferentes, a ritmos diferentes. O que faz de nós o outro é a interceção, há fatias que são comuns, outras não, serão comuns a outros. A impressão do outro são essas fatias que reconhecemos como sendo nossas. Se são muitas coincidências há empatia. Se são muito diferentes receamos. A empatia vai de se saber que o outro sou eu, em fatias diferentes.

loucura

há uma loucura que não pára, não pára, não pára. só não esquecemos os bolsos cheios e o umbigo farto, cheios de nós com menos dos outros, com mais de coisas que usamos e menos da casa que vamos deixar para quem como nós chega aqui, sempre de novo, sempre com esperança, vontade até de mudar o que está. ainda bem. ao contrário isto era só uma lixeira a céu aberto com almas e tudo, escancaradas e vazias

depois

não há depois, há agora, talvez amanhã ou para a semana também haja, mas não mais do que isso.

estreito

todos os dias, a vida curta,

estreita, sempre um pouco mais

bem caminhas em revoltas cadas vez mais curtas

o abismo por diante, por de lado, por de cima

e mais uma volta, não vás cair

essa caixa de vida estreita que desconhecias tão estreita

que vais a seguir empurrado como um animal

estreito e estreito, de volta breu

do outro lado breu

por todos os lados uma ausência negra

empurrado, não vais sorrir, nem ser feliz

 

quererias pegar no telefone e falar, não está ninguém

nem nesse número nem no outro, nem hoje nem amanhã

esse número está só na tua agenda e não o vais apagar

querias ouvir uma voz simples, doce, sincera

nem nesse número nem na morada dela

quando terá sido a última vez que lhe disseste alguma coisa,

que a viste, ou que foste a casa dela

não não, se pensas em falar com quem dizer o que te vai por dentro

ninguém, só sorrisos que te vão gozar amanhã, num comentário qualquer

e mais estreito

vives, mais vale só com o mar do que com este breu imenso

mais vale esse animal de companhia que a companhia com quem não posso dizer nada de dentro

dela só as coisas que deixou e o que disse sem querer dizer nada

todos os que te ouviam dizer-te, morreram

o que farás agora?

Franz E., abril 2018

nua

gostava de te ver nua

puxar-te os cabelos com ganas

rodear-te os mamilos com  a língua

seguir o teu corpo balonçando

pintar cada cêntimetro dele com os dedos

antes, perco-me no teu decote

imagino o que vai por dentro dessa roupa seminua

agora,

esvazio-me de alegria ouvindo-te

adormeço com a empatia entre nós

sossego no quentinho do teu corpo

Franz E., abril 2018

 

Teatro

Ir ao teatro não é um hábito do povo português. Devia. Sim, devia ser. É um momento de reflexão que bem é preciso. Mas ensinaram-nos a ir à missa, mas ao teatro não. Na escola não há teatro. Devia. Sim, devia haver. Mas ensinam-nos a seguir a cartilha. Como a vida é feita de irreflexão e cartilha, correria e poeira, quando há uma catástrofe, acordamos todos para a tragedia. Que reflexão deveríamos ter feito? De que modo deveríamos ter resolvido?

Porque é preciso comer o tempo a esta velocidade? Assim, é muito fácil cometer erros…