O Gato

O Gato morreu hoje. Não é nem o meu gato, nem um gato, é o Gato. Espremesse o meu coração e sai uma alegria enorme quando penso nele. Mas a saudade que deixa, a companhia que fazia, a  falta que faz, torna este mundo muito mais triste. Uma delicia de animal, uma serenidade e uma sabedoria que nenhum de nós alcançará. Um animal acima de todos os animais, nem precisava de falar, sabia muito bem comunicar e sabia muito bem o que queria. Amo este gato, o gato, como um filho, um companheiro, um amigo. Protegi-o, tirei da minha boca para a dele, fiz sacrifícios para o bem estar dele, partilhei alegrias e tristezas com ele, seja quando ele estava zangado ou quando era a minha vez. Fazia parte da família. Acho que conversava mais com ele em silencio do que com os amigos, aprendia mais em silêncio do que os humanos a falar, ele acalmava-me, bem podia vir zangado que o olhar dele me dizia, deixa lá isso, não tem importância nenhuma. Dá-me mas é colo! Obrigado Gato. Foi um prazer viver contigo. É só escrevo isto porque não consigo conter esta tristeza. Tinha muitos nomes, diminutivos e aumentativos, nomes lamúrias e suclencias. Amanhã direi mais. Hoje vou chorar.

Sob qualquer deus

O ser humano vive sob qualquer deus, desde que acredite que são essas as leis que darão ordem a tudo isto. Ordem porque suportamos pouca desordem. Ficamos desorientados com tanta informação contraditória no cérebro e no corpo por inteiro. Tendemos a credibilizar esse deus se tem história, se vem do passado, isso significa que com mais experiência terá mais sabedoria para enfrentar o futuro. E no meio disto tudo gostamos de comer o tempo, ávidos de informação, até ficarmos intoxicados com informação. Com muito menos podemos viver. Sendo assim, estamos condenados, por natureza a viver o nosso tempo único à pressa e com alguma ordem. Por vezes, esse deus começa a provocar sofrimento, transforma-se num diabo, ele mesmo intoxicado pelo poder, não tolera que o deponham ou que o contradigam. Deste lado, eu não quero confusão nem muito alarido, lá vamos seguindo a nossa vidinha até que a maçã podre caia, digo, diabo, e outro deus apareça.

Amor

Disse-me mesmo à beira do balcão, com meia dúzia de garrafas  em frente, que o sexo ou o amor que fazia com a mulher, sabes?, não me lixes, isto não sai daqui, que a minha mulher é tudo para mim, enquanto o faço, enquanto isso, percebes, pensava noutras, que via por aí, a mulher já não o excitava, sempre da mesma forma, mas amava-a e não quero outra mulher, nem sequer estar com mais ninguém que não ela,  percebes?, se não pensar nas outras mulheres não consigo. Daqui só vou quando estiver sóbrio, não entro em casa desta maneira, ela não sabe que bebo, talvez desconfie, também não sabe que penso nas outras, talvez desconfie, mas isto deixa-me de rastos, pesa na consciência e bebo para esquecer, levo-lhe flores, não me esqueço de a convidar para um copo, ofereço-lhe sempre algo especial no aniversário, ou quando me lembro do melhor dia da minha vida, o nosso casamento, e lembro-me dela quase todas as horas do dia. Se ele saísse da minha vida era como se arrancassem um pedaço de mim, espero que eu morra primeiro para não ter que sofrer a morte dela. Fiquei calado e fui ouvindo. E perguntei-lhe o que pensaria ela para fazer amor com ele? Em que pensaria ela? Eh pá agora é que mataste a coisa… Sim, ela também terá as suas estratégias.

analogia

não há analogia que nos salve, ou melhor que explique e dê sentido a isto. E sem sentido, vais dizer o quê? Terá sentido neste espaço tempo em que vives? Vives numa bolha imersa e daqui a pouco serás nada quando nem o nada é. Não haverá tempo e nada se saberá sobre o que fizeste ou que foste, nem sequer o que sofreste ou as preocupações que te ocuparam. Portanto pá, relaxa, as tuas preocupações valem pouco, não te eleves alto de mais, nem sobrevalorizes o que queres fazer, pouco importa. Faz, é só isso que interessa, arrisca, só isso interessa, pouco importa que ices uma bandeira sobre isso.

Não vi

Não vi

Não sei

Nada disto faz sentido

Nada

E contudo vamos, só para satisfazer o verbo

Como condenados a ir, a passar

E por isso não vemos, não sentimos

Nenhum verbo mais interessa que não ir ou passar, fluir

E quanto mais depressa melhor,

Isto ajeita-se ao verbo

Vamos, passamos sem sentir.

Certo ou errado? Que interessa, vamos.

Franz Einstein, 4 de junho 2018

Escrever porquê?

As palavras fogem e queimam, e tarde se descobre a vontade de escrever mais uma palavra, mesmo que encaixe retorcida esbaforida quase próximo da loucura, no minuto antes de terminar o parágrafo. A cada uma vais tu perguntando que merda faço eu se escrevo tão mal e tudo sai tão a ferros e há quem o faça tão deliciosamente… 

Que interessa isso, se a escrita, o ler, o ouvir a leitura, te salva da loucura todos os dias, que interessa isso!? Bem sei que interessa se a tua intenção é ser um escritor, pertencer a uma das mais altas castas que se erguem ao mais alto nível do nível mais elevado do ser mais alto que existe acima das mais altas alturas da sociedade… Bah! Não interessa nada rapaz. Nada. 

As escalas, métricas e réguas são de outro lugar, da Ciência, por exemplo, e lá ficam muito bem. Tu que escorregas vida adentro todos os dias, do mesmo modo que todos esses altíssimos escritores, vão todos vida adentro com as mesmas relíquias. A diferença está na fama. A tua é zero e continuará. Mas não estás louco, como os famosos também não estarão. Só não escreverás deliciosamente nem terás fama. Só isso. Bom, há mais do que deliciosamente, há uma escrita que te deixa depois, e não és o mesmo, não. A minha nunca fará isso, mas a desses que escrevem, que dão a sua vida por essas páginas de magia e ao mesmo tempo eternas, obrigado. Sem isso era a loucura.

Júlio Pomar

jc3balio_pomar_19-06-2013_2

https://pt.wikipedia.org/wiki/J%C3%BAlio_Pomar