morte

morres só

sim

deixa em paz quem se prepara para morrer

mas não há outra forma de o fazer com a mesma dignidade com que vives

deixa que os outros morram

sós, sim, não há outro modo digno

Franz E., Julho 2020

nada ficou

nada ficou deles, nada vai ficar

a não ser uma bengala, um copo ou uma lembrança

a não ser uma maneira de ser, de estar, de fazer

ou outra lembrança qualquer, um cheiro ou um lugar

mesmo nada os trará, nem esse tempo sequer,

e mesmo assim não te cansas de esperançar

talvez eles me apareçam à porta

fazem-me a falta que não consigo preencher

talvez me apareçam e assim viva mais um dia por inteiro

Franz E., Julho 2020

sorte

que sorte, temos a morte

o que seria viver por aqui eternamente

vendo tudo igual, como há 500 anos atrás

ou mais longe

até os gregos nos dizem o mesmo, seja na literatura ou noutra expressão qualquer

que sorte, temos a morte

José Cutileiro

Não o conheci. Ele não me conheceu, Mas a sua voz lúcida orientava, todos os domingos, entre o meio-dia e a uma, lá vinha aquele comentário baseado em factos, sem ilusões, nem armários, que não se podem abrir, direto ao assunto, com uma argumentação tão forte que nos fazia mais fortes, mesmo que não fôssemos da mesma opinião. Quando a Visão Global mudou de vozes foi uma perda, embora ainda seja uma referência na ANTENA 1. Agora pousa o mesmo autor, mas na TSF, ao sábado, sem a voz lúcida, mas com a mesma energia. Faz falta, muita falta.

https://www.tsf.pt/opiniao/morreu-o-meu-grande-amigo-jose-cutileiro-12205157.html

https://observador.pt/especiais/entrevista-de-vida-ao-embaixador-jose-cutileiro-cantei-o-hino-para-um-casal-de-amantes-em-cabul/

gelado

já viste… ouve bem, isto parece de garoto,

vá, diz lá, volta-se o outro com a garrafa apontada à boca e a cabeça empinada, os olhos de lado, não vá perder uma gota que seja.

– “estás agarrado a um gelado, tão agarrado, fazes tanta força, olhas e reolhas em reodrmesmo sabendo que não te tráz de volta a voz “hoje pago-vos um gelado”. Essa voz de conforto que nunca mais existirá neste mundo, ficou gravada desde pequeno. Esses momentos, hilariantes, enchiam o corpo de uma felicidade que chegava a todos os poros, porque era raro, mas quando acontecia era com a ternura por dentro. Agora, sento-me no mesmo sitio, só, e queria ouvir outra vez, poder voltar atrás nem que fosse meio-segundo, só isso, meio… mas só isso… mesmo assim, poder sentar-me no mesmo sitio, na mesma avenida, na mesma cidade, na mesma praia, no mesmo muro, com o mesmo vento, o mesmo aroma, o mesmo som, já me reconforta, e ter tido aquela voz, inigualável.

Talvez um dia eu possa interpretar essa voz com outro, e que talvez esse outro lhe sinta a falta quando for maior.”

quando acabei, estava o da cerveja com os cotovelos em cima do balcão, as duas mãos abraçadas à garrafa e um olhar perdido no tampo. Não fazia ideia nenhuma do que lhe contava.

O democrata e os outros

Custa a querer que um homem destes morra assim, às mãos da estupidez. É assim que é. É assim a que estamos habituados.

https://www.dn.pt/mundo/quem-matou-olof-palme-a-policia-sueca-vai-responder-34-anos-depois-12291804.html

quando

quando abraças, apertas, choras, baixas as guardas, páras de lutar, agarras, salvas, é quando te salta o mais humano, e te esmurra no fim: não valeram a pena tantas mortes, tanta loucura, tanta correria, tanta ansiedade, tanta miséria, fome, tristeza.

Valeria a pena perguntar a todos os  humanos se estariam interessados em repetir outra experiência de vida. Estou convencido que a maioria não o quereria.

Não estamos em lado nenhum, nem em tempo algum antes e depois da morte. Antes e depois não são parametrizáveis de nenhuma maneira, a não ser que estejas vivo. Só se estiveres vivo e só se o disseres enquanto. O tempo existe só nesse momento. Só nesse momento és humano.

eliminiacionismo

Parece que nos deixamos estar a pensar que o bem, “o lado Bom”, ganha sempre, e que não é preciso levantar o rabo do sofá, para acordarmos e já estarmos numa situação em que somos obrigados a aceitar estas deformações como parte do quotidiano: o outro, não sendo como eu, que faço parte do status atual, tenho o dever de o esmagar, de o queimar, de o eliminar, como se o eliminiacionismo fosse uma coisa normal, banal, até mesmo uma exigência. Sim sim, o eliminiacionismo acontece, em todo o lado, aconteceu e irá acontecer, podes até matar os teus próprios vizinhos, têm é que ser combatido, todos os dias!

https://en.wikipedia.org/wiki/Eliminationism

ferida

Se vai à vida com medo de morrer ou se escreves com medo de fazer ferida… muda de sonho ou esquece a caneta