quem somos

isto é um fluxo de vida, um chegar permanente, minuto a minuto, a um presente que pode ser um mescla de situações. Se olhasse para ti veria uma mescla de outras vidas e tu és essa mescla, tu és fatias de outros que também são fatias, ou melhor, conjunto de fatias que também são tuas. Isto porque vivemos todos mais ou menos as mesmas situações, mas em tempo diferentes e passamos por lugares diferentes, experiências diferentes. Tu significa que tens um conjunto de fatias de vida diferente de outros. Mais um pouco à frente, tu és a tua rede neuronal, um conjunto de conexões neuronais que te fazem tu mas que outros também viveram, em contextos diferentes, em tempos diferentes, a ritmos diferentes. O que faz de nós o outro é a interceção, há fatias que são comuns, outras não, serão comuns a outros. A impressão do outro são essas fatias que reconhecemos como sendo nossas. Se são muitas coincidências há empatia. Se são muito diferentes receamos. A empatia vai de se saber que o outro sou eu, em fatias diferentes.

loucura

há uma loucura que não pára, não pára, não pára. só não esquecemos os bolsos cheios e o umbigo farto, cheios de nós com menos dos outros, com mais de coisas que usamos e menos da casa que vamos deixar para quem como nós chega aqui, sempre de novo, sempre com esperança, vontade até de mudar o que está. ainda bem. ao contrário isto era só uma lixeira a céu aberto com almas e tudo, escancaradas e vazias

depois

não há depois, há agora, talvez amanhã ou para a semana também haja, mas não mais do que isso.

nua

gostava de te ver nua

puxar-te os cabelos com ganas

rodear-te os mamilos com  a língua

seguir o teu corpo balonçando

pintar cada cêntimetro dele com os dedos

antes, perco-me no teu decote

imagino o que vai por dentro dessa roupa seminua

agora,

esvazio-me de alegria ouvindo-te

adormeço com a empatia entre nós

sossego no quentinho do teu corpo

Franz E., abril 2018

 

Teatro

Ir ao teatro não é um hábito do povo português. Devia. Sim, devia ser. É um momento de reflexão que bem é preciso. Mas ensinaram-nos a ir à missa, mas ao teatro não. Na escola não há teatro. Devia. Sim, devia haver. Mas ensinam-nos a seguir a cartilha. Como a vida é feita de irreflexão e cartilha, correria e poeira, quando há uma catástrofe, acordamos todos para a tragedia. Que reflexão deveríamos ter feito? De que modo deveríamos ter resolvido?

Porque é preciso comer o tempo a esta velocidade? Assim, é muito fácil cometer erros…

há um abismo

há um abismo que não era abismo, mas que vai sendo há medida do teu envelhecimento. Correrás para ele, refarás curvas e recurvas noutras direções, seguiras linha reta tão lento quanto possível? E chegados lá, que fazes?