analogia

não há analogia que nos salve, ou melhor que explique e dê sentido a isto. E sem sentido, vais dizer o quê? Terá sentido neste espaço tempo em que vives? Vives numa bolha imersa e daqui a pouco serás nada quando nem o nada é. Não haverá tempo e nada se saberá sobre o que fizeste ou que foste, nem sequer o que sofreste ou as preocupações que te ocuparam. Portanto pá, relaxa, as tuas preocupações valem pouco, não te eleves alto de mais, nem sobrevalorizes o que queres fazer, pouco importa. Faz, é só isso que interessa, arrisca, só isso interessa, pouco importa que ices uma bandeira sobre isso.

Escrever porquê?

As palavras fogem e queimam, e tarde se descobre a vontade de escrever mais uma palavra, mesmo que encaixe retorcida esbaforida quase próximo da loucura, no minuto antes de terminar o parágrafo. A cada uma vais tu perguntando que merda faço eu se escrevo tão mal e tudo sai tão a ferros e há quem o faça tão deliciosamente… 

Que interessa isso, se a escrita, o ler, o ouvir a leitura, te salva da loucura todos os dias, que interessa isso!? Bem sei que interessa se a tua intenção é ser um escritor, pertencer a uma das mais altas castas que se erguem ao mais alto nível do nível mais elevado do ser mais alto que existe acima das mais altas alturas da sociedade… Bah! Não interessa nada rapaz. Nada. 

As escalas, métricas e réguas são de outro lugar, da Ciência, por exemplo, e lá ficam muito bem. Tu que escorregas vida adentro todos os dias, do mesmo modo que todos esses altíssimos escritores, vão todos vida adentro com as mesmas relíquias. A diferença está na fama. A tua é zero e continuará. Mas não estás louco, como os famosos também não estarão. Só não escreverás deliciosamente nem terás fama. Só isso. Bom, há mais do que deliciosamente, há uma escrita que te deixa depois, e não és o mesmo, não. A minha nunca fará isso, mas a desses que escrevem, que dão a sua vida por essas páginas de magia e ao mesmo tempo eternas, obrigado. Sem isso era a loucura.

Júlio Pomar

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https://pt.wikipedia.org/wiki/J%C3%BAlio_Pomar

Eduardo Lourenço

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https://pt.wikipedia.org/wiki/Eduardo_Louren%C3%A7o

fama

Se a coisa não presta põe-lhe muita luz e som, cor e floreados, publicidade e video, que isso vende na mesma. Bem verdade que há muita outra coisa submersa, sem dar nas vistas, de enorme qualidade. As duas ao mesmo tempo já é mais dificil. Falo de música que até robots tem, mas a música viste-la, e outra música que só tem voz ou instrumentos e a coisa deixa-nos nas nuvens. Não a publicitaram mas ainda bem que estamos a ouvi-la. E vai assim para outras artes. O que muito é famoso, e na maior parte dos casos, muito mau em conteúdo. Vê-se muito bom e que está escrito numa folha de papel e pequena. Cada um decide o que ver e o que ler e o que ouvir.

há um rio

Há um rio submerso depressivo, nostálgico e silencioso, que escolhe todos mas não tem nome, é onde somos reis e rainhas, heróis maiores que os outros heróis, onde perguntamos quem somos e para onde vamos, nas margens do qual vivemos sozinhos e morremos sozinhos.

Os funcionários 

Estava a pensar numa história assim. Feita de tantos feitos, feitos já feitos, já passados. Baseada na história de Eichman, a partir do julgamento descrito por Hanna Arendt, em Israel, a dizer que somos cataventos, dançando conforme os tempos políticos, com pouca autonomia, discernimento, clarividência, pouco corajosos, somos todos assim, constrangidos por milhentas desconfianças em nós mesmos, à espera do grupo suficientemente grande onde cabemos e onde nos sentimos seguros. Somos mesmo assim. Outros não, arrastam-se convencidos, confiantes de que é esse o caminho, seja Eichman como um Resistente Francês, seja pelo ideal de superioridade pré-definida, seja pela liberdade, confiam que é esse o caminho, seja miserável ou pela alegre. seja pela intolerância ou pela tolerância, seja por uma certa ordem ou pela diversidade. Acabamos todos por ser funcionários de um ideal, mesmo que não concordes com esse ideal, acabas, por em geral aceitar isso, porque convém naquele momento. Eu acima de tudo, desde que eu sobreviva.