Vai-se


É meio século de afetos, chegadas e partidas, lamentos, dizeres, conversas, dizendo “gosto de ti” sem se ter dito, nem nunca ter sido exigido que se dissesse, nem sequer se ter sentido que deveria ser dito. E agora fria, um corpo só, vestido, olhos fechados, uma mão sobrevoa outra, deixou de ser a tua avó. Essa, era sorriso,  alegria, certeza, ternura, optimismo, sem nunca, ou poucas vezes desanimar. Ela teria 40 anos quando a vi, ela tem 91 quando parte, sem nunca a ter visto chorar, nem lamentar, mesmo que a vida lhe tenha roubado um filho, a escola, lhe tenha dado incertezas e amarguras, nunca fez greve, e vai como todos vamos, anônima, sem fama nem glória , com uma vida a fazer bem, outra vida de franqueza, honra, verdade. Só lamenta não ter sido professora de história. E dizia que o fim do mundo estava escrito na Bíblia, terminaria com todos contra todos. Talvez tenha razão. Quem sabe. E que interessa agora. Que interessa a morte de quem quer que seja a não ser que seja uma parte de ti, tão de ti que não podes distinguir. Mas tu ficas e ela vai para lado nenhum que não saibas, o fundo de um buraco sem luz.

Franz E, 26 Jan 2018

4 thoughts on “Vai-se

  1. E quando se vai fica um vazio, um buraco, não se chora, está-se sempre a chorar, nem sabia que ela, era assim tanto, a voz que não se houve, as palavras que se foram, a casa a que não se vai mais, herdas uma caneca que pediste, só para a recordar.

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