a viagem

À presença da Natureza, sincera e objectiva, contraponho a gargalhada humana, escrava da hipocrisia.

Lá fora a Natureza acompanha-me por inteiro, até à alma e o corpo mole; o cinzento enche as ruas, as calhas transbordam, e nem as janelas se podem abrir, tanta chuva tocada a vento, vento que assobia frinchas adentro e a tempestade não arreda, agudiza-se mais ainda. As janelas cobertas por colunas pequenas de água, vidro abaixo, espirrando, não deixam ver o que quer que seja. Olho-me. Raiva e ódio sinto, sorriso hipócrita, face opaca que teima em ficar, são meus, este corpo e esta face nesse espelho, e o espírito, as fraquezas também não se vêem… tudo! Porque haviam de ser meus? Na lama, é onde vivo… como se um caixão me adornasse a forma do corpo, crispado por dentro. Não se esqueçam (falo para ti), estamos comprometidos com um caminho único, não sabemos qual é, nem está determinado e que só a aparente diversidade de escolha pode justificar alegria.

O Fraco, Franz E., 2ª parte, p.17

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não quero chegar

não quero, pronto! Chamem-lhe birra, mas quero mudar, gostava, ambiciono pelo menos, tenho a intenção de, mas disso está o inferno farto, de intenções, digo, diz-lhe a avó, era mesmo só a visão do mundo, pois isso menino é ainda mais díficil, não é tão isso, é mais, da guerra ansiosa de chegar à delícia da viagem. Passar do destino para a viagem. Do querer chegar para o querer andar. Do querer fazer tudo para o querer fazer pouco.