Não levo saudades

“Não levo saudades desta vida” – disse ele e escrevo eu.

“Não diga isso. Tem neta, filhos saudáveis, mulher dedicada, que mais quer?”

Aproximou-se tão perto, baixou a voz – “Estou aqui na vertical, nem sei como, não há canto do corpo que não me doa, nem mesmo a alma. Tenho setenta anos e trabalho 15 horas por dia. Atrás de um balcão, aturo má educação, nem vejo Sol. Estou cansado. Muito.” – encostou-se ao balcão atrás dele.

“O mais espantoso, no meio desta atrapalhada toda, funciona. Isto funciona, mesmo no meio do caos.” – Disse-lhe o outro e escrevo eu.

 

bilhete

Reconhecia ao fundo uma silhueta de um homem e da sua carroça. O animal puxava a enorme carga com esforço, a mando do dono empenhava-se em vencer as agruras do caminho; a carroça pesada cambaleando como um embriagado ligada ao corpo do animal por cintos, que apertavam como um cilício; aos dois, sem tréguas, o vento e a chuva fustigavam as capas humildes, que mesmo assim se adiantavam por entre o ardil da Natureza. O dia começava cedo por estas paragens, e mesmo a chuva não impedia que a vida prosseguisse lenta e estóica. Eram estes os lugares da vida, da morte e da criação, eram lugares onde o tempo não existia, lugares serenos, ocultos e sem novidade. A sua beleza nascia com as gentes, nascia sem querer e mantinha-se eterna; não era suficiente ser para viver ali, era necessário nascer aqui para se viver naqueles lugares, para mim, magníficos. Pensava eu que o meu caminho era adiante, quando afinal aqueles lugares que o meu olhar breve observava escondiam o ser e a serenidade. Quantas vezes o sentira durante os passeios pelas terras da minha terra, mas agora a minha vontade era outra e… só deixara um bilhete àqueles tão chegados,

O Fraco, Franz E., 2ª parte, p.21 e 22

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escrever

Está contigo e com tantos outros. E sabe bem um prémio, nem que seja o de um  amigo que diz: “gosto do que escreveste!”. É mesmo bom. Tantas horas de volta de uma parágrafo, e até funcionou. Que bommm!

Essa coisa da escrita esteve, está e estará, nem que seja para uma pessoa só. Só útil para um. E gostamos de o fazer naqueles momentos inspirados. Depois de um café. Numa esplanada. Ou numa biblioteca acolhedora. Bem queríamos que fosse útil. Uma história serve para dizer aos outros o que se passou: “comigo foi assim”. Pode ajudar contar.

É certo que bem gostamos que nos leiam. O outro extremo é a fama. Quase todos os humanos a querem. Mas tem amargo. Há quem goste: a notoriedade. Embora signifique “viver da escrita”. Há muito poucos que realmente vivem disso. Os seus nomes passaram a ser uma marca. Vende. Muitos deles queixam-se exactamente disso, são uma coisa.

Quanto ao trabalho, é para lá de muito, mas não interessa: “Quem corre por gosto não se cansa”.