quando

quando abraças, apertas, choras, baixas as guardas, páras de lutar, agarras, salvas, é quando te salta o mais humano, e te esmurra no fim: não valeram a pena tantas mortes, tanta loucura, tanta correria, tanta ansiedade, tanta miséria, fome, tristeza.

Valeria a pena perguntar a todos os  humanos se estariam interessados em repetir outra experiência de vida. Estou convencido que a maioria não o quereria.

Não estamos em lado nenhum, nem em tempo algum antes e depois da morte. Antes e depois não são parametrizáveis de nenhuma maneira, a não ser que estejas vivo. Só se estiveres vivo e só se o disseres enquanto. O tempo existe só nesse momento. Só nesse momento és humano.

essaoutra mão

Houve uma mão que segurou essaoutra mão, mais pequena, que segurava essaoutra mão maior. Se passeavam ou não, se iam ou vinham de casa, certo é que caminhavam juntos, à velocidade um do outro, com a alegria de quem fala de si para si. Se foi breve ou não, não se sabe, sabemos sim que naquele instante, uns minutos para trás outros para a frente, era de alegria que levavam, de estar juntos, de falar juntos, do que fizeram ou do que fariam. Não sabiam era que muito tempo depois estariam separados, mesmo que se falassem, mesmo que se escutassem, veio uma nódoa que não era de outrem, mas da responsabilidade de um e outro, e que os separou. Falou-se disso. Mas eles não. Entre eles só conversa fiada. Disse outro, com mais tempo na pele, que isso vai mesmo assim, igual a tantas outras mãos, aqui e noutros lugares, com estas e outras pessoas. Segue-se de felicidade em felicidade, passando pela infelicidade de não se segurar essa mão nunca mais, e não é porque esteja longe é só porque o amor desapareceu como areia entre os dedos. E que irás fazer? Deixa-me chorar, mesmo que nenhuma lágrima caia.

Franz E., dezembro 2016

faço alguém feliz?

Hoje fui a ver por onde andei. Lugares que ocupava todos os dias, as mesmas caras, as mesmas árvores, a mesma pedra desalinhada junto à esquina onde uma raiz se enterra, o mesmo buraco de terra, o mesmo caixote do lixo, o mesmo portão verde, o mesmo cão cansado, o mesmo bom-dia, a mesma mesa de café, as caras conhecidas da altura. Vezes e vezes e vezes repetidas, até que parti e revisito agora, muito tempo depois. Em cada rua, em cada beco, em cada casa, em cada passeio, em cada calçada tantas vezes pisada, em cada retiro onde passei, onde namorei, onde trabalhei, onde acompanhei, onde agoniei, onde sofri, em cada esquina onde segurei uma mão minúscula, e falei, falámos, onde brinquei com ela, onde a segurei ao colo para ver aquele gato estendido, onde lhe sorri, onde ouvi a sua gargalhada sincera, só me fica uma pergunta: “terei sido feliz?” e outra maior “Terei feito alguém feliz” e nasce outra agora “Faço alguém feliz?”

resgatar o tempo feliz

Isto repete-se vezes sem conta. Umas atrás das outras. Resgatar ao tempo os momentos em que fomos felizes ou parar para sempre neste momento em que somos felizes. Não avançar um minuto que fosse em diante. Outras vezes, resgataríamos apenas uma pequena parte do tempo, porque no geral fomos infelizes. Se isso fosse possível, teríamos de poder seleccionar independentemente do outro. Tenho a certeza que para o outro, o meu tempo feliz não seria o dele ou dela. É quando nos sentimos sós, empurrados para o lado, ignorados por quem amamos que sentimos a pedra nas costas e procuramos soluções absurdas, como esta: a de resgatar o tempo. A solução está mais próxima: aceitar as tormentas e procurar fazer melhor.