a viagem

À presença da Natureza, sincera e objectiva, contraponho a gargalhada humana, escrava da hipocrisia.

Lá fora a Natureza acompanha-me por inteiro, até à alma e o corpo mole; o cinzento enche as ruas, as calhas transbordam, e nem as janelas se podem abrir, tanta chuva tocada a vento, vento que assobia frinchas adentro e a tempestade não arreda, agudiza-se mais ainda. As janelas cobertas por colunas pequenas de água, vidro abaixo, espirrando, não deixam ver o que quer que seja. Olho-me. Raiva e ódio sinto, sorriso hipócrita, face opaca que teima em ficar, são meus, este corpo e esta face nesse espelho, e o espírito, as fraquezas também não se vêem… tudo! Porque haviam de ser meus? Na lama, é onde vivo… como se um caixão me adornasse a forma do corpo, crispado por dentro. Não se esqueçam (falo para ti), estamos comprometidos com um caminho único, não sabemos qual é, nem está determinado e que só a aparente diversidade de escolha pode justificar alegria.

O Fraco, Franz E., 2ª parte, p.17

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morrer

a nossa geografia emocional encolhe e empobrece quando os que estão mais perto desaparecem da vista. Há quem diga que estamos a crescer e a vida, essa passa a ter outro sentido, que é o mesmo que dizer que, não tem sentido nenhum. A ter sentido, és tu que o defines e decides se o persegues ou não. De facto, a quem parte não se diz nada, a quem fica diz-se que tenhas força, coragem, a vida é mesmo assim, remata-se. Cheque-mate. Fazes o luto, choras se fores capaz, e pensas que te falta pouco, pode até acontecer amanhã ou agora mesmo. A viver que vivas por inteiro, mais do que fizeste até aqui, pois mas o que queríamos era mesmo viver mais. E quando for, que seja rápido, sem sofrimento, sem delongas, nem em modo vegetal. Parece que ficámos insensíveis, nada é importante e tudo se esvazia. Não te morreu um amigo? Sim, mas não lhe posso nada. E depois, levantas-te, que a vida é para se viver fora do sofá, como quem parte o faria, e quererá que o façamos.