CEE

“Provavelmente, o capitalismo irá, agora que se vê privado da sua imagem do inimigo, ideologizar-se e, em consequência, autodestruir-se. Aqui em Portugal torna-se patente, até perder de vista, a força destruidora que emana da CEE, isto é, da sua central de Bruxelas. São aqui derramados balúrdios para a construção de estradas. Fundos estruturais, é como se lhe chama, só que estes retalham estruturas já existentes, destroem a a gricultura que, seja como for, já só marginalmente subsiste, lançam o país  e as pessoas para um atraso ainda maior ao medi-los à luz das normas comunitárias, fazem este boom  na construção, que de nada serve, passar por florescimento económico, empurram os produtos portugueses para o canto (substituindos por espanhóis) e poderiam demonstrar aos polacos que vivem lá distantes o que irá ser o florescimento logo que a Europa Ocidental, apresentada sob a forma da CEE, tomar posse e tirar partido das suas fraquezas.”

Günter Grass, Out. 1990, Em Viagem, p.229, D.Quixote, edição maio de 2013.

cena

Ao título desta cena de 30 anos em que Portugal viveu e vive, uma ilusão com uma sombra infinita, que não se pode chamar teatro, este é bem mais honesto, dizia, a esta ilusão, parecida com a juventude, onde conta mais o que pareces do que o que és, daria o título “A ditadura do dinheiro”. Mas isso não se ajusta ao que Portugal é, um país que nos deixaram no colo outros que por ele deram a vida. E se Portugal é, porque deixamos governar quem quer parece que é?

mudança

Não sou futurologista. E se fosse, fechava bem os olhos, cerrava-os com os dentes, mesmo que fizesse figura de parvo, só para não o ver, ao futuro digo eu.

A mudança é tal que nem a consigo imaginar. Portugal daqui a dez anos? Eu imagino-a grande, mas parece-me ainda maior.

Já a viram. Já a tentaram vislumbrar. À mudança digo eu. Corrupção, transparência, justiça, educação, parlamento, política… e não falo apenas dos políticos, falo de todos, de tudo o que em cada um tem de mudar.

E a coragem para fazer isso? É a mesma coragem de um Vasco da Gama e de quem o acompanhou. É a mesma coragem de um Salgueiro Maia e de quem o acompanhou. É a mesma coragem de Aristides de Sousa Mendes e de quem o acompanhou. É a mesma coragem de qualquer um dos anónimos portugueses que já habitaram Portugal ou que o tiveram de deixar. São tantos corajosos. Agora chegou a nossa vez.

E se tiver de haver porrada para fazer essa mudança? Ai é que a coisa começa a deixar de ter graça.

Esquerda ou violência

Manifestação 15 Set 2012, Praça de Espanha, Lisboa, Portugal
credits by FranzE. 2012

A violência não tem futuro, só se o futuro estiver no horizonte de dez anos ou menos.

Para resolver o assunto em frente à assembleia, a polícia usou a violência porque esse é o modo imediato para resolver o problema. Não o resolve a longo prazo.

O problema que temos em mãos não se resolve atirando pedras a polícias. Eles, como nós, são cidadãos, vivem exatamente o mesmo problema que qualquer um de nós.
O que enfrentamos não se soluciona com violência porque o futuro de Portugal não é de curto-prazo. Obviamente que não se escorrega na ingenuidade. A violência é um dos caminhos possíveis, porque o desespero é real, sobretudo nos jovens onde o desemprego já ultrapassa os 35% em Portugal. E não vendo caminho, decidem-se pela violência.

Contudo, se recuarmos um pouco haveremos de encontrar soluções que abanem o dito “sistema” para que se encontre uma solução que seja partilhada, consensual, abrangente, transparente. De facto, caímos do outro lado, quando quisemos evitar o comunismo: uma ditadura do proletariado em que o individual desaparece. Tornámo-nos desumanos, centrados no próprio eu, egoístas e soberbamente desconfiados.

E se na minha opinião, é importante a ideia de solidariedade e tolerância, também o é a da humanização, bem como a da transparência, do individual e da confiança na pessoa. Portanto, parece-me que a coisa vai estar no equilíbrio entre o individual e o coletivo. Não sei em que ponto exatamente, mas que Portugal, a Europa serão conceitos muito diferentes no futuro a dez anos disso tenho a certeza.

Quanto menor violência tanto melhor, mas temo que se chegue a situação de guerra, porque o ódio e a raiva começam a criar raízes naqueles que desesperados, já nem prato têm.

Outro assunto que cruza este é a questão da sustentabilidade do atual modo de vida europeu/ocidental. A crise passa por ai também. E ainda pelo facto de, povos extremamente pobres estarem hoje com melhor nível de vida. Isso, significa que a Europa não pode continuar com este níveis de gastos energéticos e ambientais como até aqui. E suponho até que o limite de sustentabilidade tenha sido já ultrapassado e que o assunto seja já mundial e não ocidental.

A crise, com ou sem violência, servirá para que nos recentremos no que queremos, e naquilo que é importante. O que queremos? Que Europa queremos? O que é importante? A não ser que queiramos uma sociedade desumana, autocrática, intolerante, insustentável, desconfiada, como já aconteceu no passado. Provavelmente será por esse drama que teremos de entrar novamente antes de nos apercebermos do que necessitamos de fazer.

Sempre que um projeto se apresenta solidário, tolerante, humano, sustentável, num equilíbrio entre o coletivo e o individual, tenho tendência a dizer que sim. Ao contrário, tendo tendência a construir um tricheira.