os outros e tu como anti-outro

E se vais lendo o que se vai dizendo, acertas num sítio que não esperavas. Não há alguém que guarde um gesto sincero, humano, sobre o outro que não conhece e que nunca o viu mais gordo? E fica certo, mais certo ainda com a idade que vais carregando, que não há nada que faças que não seja estúpido, palerma ou “farias melhor outra coisa qualquer”. Isso. Mesmo isso, mesmo que a tua intenção seja a suprema e sincera, por mais bem intencionado que sejas ou estejas.

Vem sempre o ou a que diz “esse filho da puta quer é tacho, protagonismo ou está metido numa tramóia qualquer, enganando uns e outros, tem é mania, ou melhor seria ficar quieto, para que quer ele fazer isso?” E vai ficando mais apertado quando isso se esconde em todas as conversas que não ouves. E se fizeres delas suposição, pior para ti, arremessaste para um sofá de onde só sais quando o corpo dorido se mandar para a cama.

Neste e noutro tempo, a inveja é o agoiro, a má língua é tão antiga que suporta até o desprezo, o escárnio e o mal dizer. E tu também o fazes, quando fazes de outro.

Ai, ai, vem de tão longe que serve de suporte ao desprezo pelo outro, e se bem vindo pela política vai dar em merda da valente. Não é que o anti-outro não exista,, desapareça, ou se vá de vez. Vai daí, segues essa mesma conclusão, o ser humano dança conforme a música política do momento, aqui é um ali, e tu és o outro, o que torna difícil de julgar quem quer que seja. Melhor, melhor é ouvires o que dizes, fazeres o que dizes e responderes ao que perguntas, o resto são as vozes ruído que não fazem de ti nem homem nem mulher, antes te fazem um desumano carunchoso e bafiento.

sem ver o Sol podes viver. sem deixares entrar luz não deixas viver nem vives. se alguém souber abrir estas portadas bem faria. viveria e faria viver. ou melhor ainda, faria sorrir.

nunca vi Sol

amor

parece-me que misturas amor e paixão. Paixão é o que se fala neste post. Amor é o que fica depois da paixão, e pode não ficar nada, e pode ficar tudo, mesmo que quem partilha esse amor não esteja junto. E isso é diferente, deixem acabar, para os que participam nesse amor, nessa ligação. Amor é parecido com compaixão, tem felicidade, sente-se a falta, pode falar-se sem nunca o definir, não é coisa, é estar sem pedir, é escutar mais do que falar sempre, é estar para o outro, ou outros, sem si. A paixão tem prazo, até dizem os ceintistas, dois anos.

quem são estes? se somos nós. Quem somos nós? se somos eu. quem sou eu? estas caras querem sair da foto. tu queres entrar nela. dizer “olá”. gostava de ouvir isso. saber em que dia foi tirada. e porque se deixaram fotografar. de que falaram antes e depois. saber ao que vão. para onde. são estes os meus. e sei isto. e aquilo. e faço. sou capaz disto e daquilo e não corro para lado nenhum. desprezo isto. gosto daquilo. sei da minha miséria. sei das injustiças que me vergam. só não sei da merda que ainda vou fazer. podia ser diferente. mas não me arrastes para fora deste tormento. não conheço outro. não me toques. que não vou. e só irei se me empurrarem. se me apontarem uma pistola à pele. faço-o pelos filhos.

de dentro da ingenuidade salpicos de esperança. seria possível ao menos eregir-se uma estátua à pessoa desconhecida, àquelas que enchem as ruas. as casas. as terras. as aldeias. as cidades. correndo. escavando o alcatrão em busca de uma moeda. a seguir ou antes disso. poderia a política terrestre incluir a voz das pessoas desconhecidas? Sim. é possível. alguns têm a vontade de soltar esses tormentos que afogam a mente e fazem-no. mais ou menos ruidosos. fazem-no. com mais ou memos publicidade. fazem-no. com mais ou menos persistência. fazem-no.

Sebastião Salgado, Bihar, Índia, 1989

O Bom Alemão

Foram os alemães inocentes? Seremos inocentes? O que farias tu se odiasses desta maneira? Têm os humanos esta coisa de sermos melhores que os outros, de querermos ser melhores que os outros, de nos dizermos escolhidos. Que os outros pouco valem, eu daqui, sou maior do que tu, e tu desprezível, não deves pertencer a uma sociedade perfeita, que eu perfeito não tolero imperfeitos, e se me dizem que posso matar, destruir, os outros, humilhá-los e desprezar, fazer sofrer e continuar até que não sinta dor, porque no futuro, na sociedade perfeita, a que faço parte, tu desprezível não contas, não fazes parte, não podes existir. O que farias tu?

 

Links:

http://en.wikipedia.org/wiki/Mittelbau-Dora

http://en.wikipedia.org/wiki/The_Good_German

relação

Há a relação, casado, de facto, à distância ou assim-assim. E claro há a relação com os amigos. Mais simples não há. Amigos temos poucos. É mesmo assim e ainda bem (para muitos não há tempo). Um ou dois, três talvez, mas duram toda a vida. Muito se passará mas os amigos não mudam.

Conhecidos muitos, uns mais chegados outros menos, alguns até nos surpreendem nos momentos mais aflitos. E isso tudo depende de ti, da tua personalidade, da tua disponibilidade.

E há de tudo. Pessoas que se odeiam mas partilham casas, algumas violentam-se, outras que se amam e não sabem fazê-lo, outras que se amam assim-assim e se seguram ao que podem para sobreviver acompanhados, sozinhos morreriam. Outros ainda, que sem saberem ao certo o que é isso de amar, acabaram por morrer quando ela partiu e há até algumas, que lhe lavam a campa ao mesmo tempo que lhe chamam filho da puta. Eles não são capazes disso, falam para dentro. Têm vergonha. E há aqueles que querem tanto, que vivem tão dentro da relação e só para a relação que acabam por dar-lhe o combustível para que impluda.

Os que surpreendem são aqueles que vivem longe um do outro, veêm-se uma ou duas vezes por ano e assim vivem uma relação à-distancia, a mais moderna, ó possível hoje, estamos a dois dias de qualquer lugar do mundo e a poucas horas do centro da Europa, e as chamadas vídeo não faltam.

De todos estes equilíbrios, retenho apenas que não há relação que sobreviva há violência e que esse equilíbrio é feito a dois, com muitos cruzamentos e curvas bem difíceis. Por vezes é o desespero. O coração bate a cem, ele calado ela em brasa verbal e a coisa acaba aninhados debaixo dos lençóis ou numa espiral invertida. Cada vez mais afastados. Às vezes acorda-se assim, o outro já é só um ponto final.

Porque é assim tão difícil? Talvez porque não há dois iguais, com os mesmo interesses e os mesmos caminhos. Alguns divergem tanto que quando se olham já estão os dois nas duas margens da gare do comboio. Essa é uma não-pergunta, tantos que lhe querem dar resposta e poucos riscaram sequer a tinta. O melhor é “ir à luta” e procurar ouvir sem nos pisarem os calos, em busca desse equilíbrio. Ah, e não é como andar de bicicleta, sabe-se uma vez e pronto, de cada vez que inicia uma relação é um novo equilíbrio com diferenças abismais para as outras.

deixei

deixei a tua mão estendida por cima de um lençol que não é o nosso. Num quarto que não é o nosso. Com uma janela que também não é a nossa. E dessa luz que lhe entrava, vi-as como nunca as vira, sossegadas, tão grandes como as minhas, com tanto tempo como o meu, manchas pintadas, pele desmaiada, à espera que as deixasse partir. Deslizei a minha sobre a tua, uma e outra vez. E não sei qual foi a última. Não quis saber. Fechei-te os olhos e alguém perguntou se te podíamos levar. – “Não podem não…” – pensei eu, mas a minha cabeça acenou apenas o suficiente para concordar. Entrou uma equipa de limpeza de rompante. O nosso tempo terminara. Ao mesmo tempo sai eu, empurrado pelo braço. E o que custa mais não é que o teu corpo parta, é que a minha memória se esqueça de ti. É que os gentis momentos que nos dedicamos se esfumem, que os esqueça. Deixei a tua mão estendida, como noutros dias te deixei aninhada na nossa cama, mas desta vez não regressaria ao quarto, dessa vez não te vou voltar a olhar para te sussurar “Amo-te doce”.