analogia

não há analogia que nos salve, ou melhor que explique e dê sentido a isto. E sem sentido, vais dizer o quê? Terá sentido neste espaço tempo em que vives? Vives numa bolha imersa e daqui a pouco serás nada quando nem o nada é. Não haverá tempo e nada se saberá sobre o que fizeste ou que foste, nem sequer o que sofreste ou as preocupações que te ocuparam. Portanto pá, relaxa, as tuas preocupações valem pouco, não te eleves alto de mais, nem sobrevalorizes o que queres fazer, pouco importa. Faz, é só isso que interessa, arrisca, só isso interessa, pouco importa que ices uma bandeira sobre isso.

flor

Parámos na pequena estação onde o mundo passa mas não fica. Corri escadas abaixo. A pequena flor na memória. Deixei-a há tanto tempo, atrás de um muro, ainda vive. Parei junto ao muro. Debrucei-me. Tantas! Havia inúmeras flores iguais. De qual me tinha depedido, sozinha. Cobriam o muro até meia altura, vigorosas, no seu lugar. A pequena flor, que agora não distinguia, fora o início, agora bem acompanhada. As outras, filhas dela, dançando com o vento. Que lhes interessa, que interessa ao mundo, mas a mim toca-me, só eu sei, guardar na memória um fiapo inútil da história por detrás de um muro que poucos sabem, onde uma flor se acha, de pequena era maior, da sorte despejou e outras iguais fizeram companhia. Digo eu isso. Só eu, no meio de milhões corro escada abaixo para revisitar uns centímetros quadrados de terra esquecida por detrás de um muro velho. Que interessa isso. Deixa-me feliz, é o mundo feito de pequenas coisas de nada e poder ser tão grande, poder crescer de tão pequena flor, poder crescer de tão pouco, por nesse recanto resistir vida em flores viçosas. El teria sido a mãe. Essa deve ser outra razão. Acordei com meio corpo a cair do outro lado do muro e as pernas esticadas deste lado. O comboio gritava a partida, agora em sentido inverso, por felicidade. Corri, olhando uma última vez, senti que queria vir aqui mais vezes. Viria? Quando me sentei já o comboio se movimentava. Agradecia ao mundo, sei lá a quem, ou ao quê, mas agradecia a quem mandou, a quem construiu, a quem fez um muro, quem está não pode deixar de continuar o trabalho que está, agradeci a existência daquela velha estação sozinha, repousada à mais tempo do que eu, esquecida outras tantas vezes e ignorada mais ainda, voltaria um dia para ficar? Quem sabe as voltas que a vida dá, e onde estaremos daqui a pouco.

morte

essa morte que ai vem é a tua. não importa se deixaste por fazer. se não terminaste alguma coisa. se deixaste o abraço nas intenções, ou o beijo no pensamento. dai em diante. da tua morte para a frente. isto que lês. o que ouves. aquilo que sentes. agora ou antes. nada existe. nem mesmo o não existe existe. nem mesmo o vazio. nem o que é escuro. nem as trevas. nem Sol. nem Terra. nem o nada existe. nem o nada de nada existe. pfiu. foste. nem o foste existe. nem guerra. nem caminho. nem o que deixaste existe. para ti nada. como se o nada não existisse. nem mesmo o nada do nada existe. nem o pfiu existe. põe-te a caminho pá. sentado não te serve.