mulher

Nem me atrevo a escrever estas palavras. Mas lá vão. São elas que mandam. São elas que mais trabalham. São elas a cola disto tudo. É delas o bom senso. São as que mais sofrem. Se perdem o filho, a filha. Se são violentadas, violadas, massacradas, vendidas, apedrejadas. Se ficam no meio da guerra. Desesperadas, ameaçam com a abstinência. Vai dai, o que de facto preocupa é a estreita visão com que nós todos a vestimos, esse nós inclui-te mulher, como se não servisse para nada mais, se não para o sexo e para o trabalho, para ser puta ou santa, se não pode pensar, dizer, ou recordar, explorar ou arriscar, de que lhe serve viver. Que nos livre a todos o futuro de as perdermos, esse farol, essa mulher que nos segura pelo braço sempre que te esvazias. Se a perdesses, pá, ai se a perdesses. Se a perdesses sei, bem sei qo ue te aconteceria, ficarias como uma múmia bassa que arrasca o carrinho de compras com os olhos na direção do chão vazio e sem cor, sem textura nem vergonha, e se passa por ti, não te ouve nem te diz nada. Bem sei que também não são flores que se cheirem. Em muitas ocasiões provamos disso, desse fel de que são capazes. Nem sequer discutas com uma. Foge pá, foge. Pois, se fugiste, perdes-te-a. Afinal fica. Dá-lhe um abraço pode ser que te safes.

nua

gostava de te ver nua

puxar-te os cabelos com ganas

rodear-te os mamilos com  a língua

seguir o teu corpo balonçando

pintar cada cêntimetro dele com os dedos

antes, perco-me no teu decote

imagino o que vai por dentro dessa roupa seminua

agora,

esvazio-me de alegria ouvindo-te

adormeço com a empatia entre nós

sossego no quentinho do teu corpo

Franz E., abril 2018

 

amor muito diferente

as mulheres amam de modo muito diferente do que os homens

ainda bem

Franz E., 20 ago 2017

mulher

Sonhei que tudo era fácil. Maria compreenderia a minha vida, a minha ambição, pensei que fosse fácil para ela, sonhei. .. ou estava iludido, pensando que a realidade era isto mesmo, uma boa vontade pegada, não é preciso mais nada. Que seria fácil para ela, até agradável, que ela estaria só para mim. Agora também sofre. E Maria, o que desejaria ela, quais eram as suas ambições? Via-a como uma grande vagina, como vejo outras mulheres, apenas para prazer, não pensam, não desejam, não querem, não teorizam, não ambicionam. Não fazem mais do que atender aos filhos ou ao homem. São mandonas mas só até certo ponto. Exigentes quanto baste. Mas isso já não é uma mulher, é a tua mãe. Maria era uma mulher.

Continue reading “mulher”

“Sabes…”

-“Sabes… ” – Segui-lhe o olhar para me certificar de que era seguro falar agora, segui-lhe os braços, vi-lhe as mãos entrelaçadas.

-“Sim … ” – Ela já sabia. Aquele “sim” cansado de esperar.

-”Queria convidar-te para ir ao cinema… trabalhamos tanto… fechamos isto e vamos divertir-nos um pouco.” – Consegui não dizer tudo. Adiei. Verdade sim. Adiei. É que não consigo. No meio deste fervor todo, as palavras ficam engasgadas não sei onde. Não as consigo resgatar. E mais. É que ela já sabia. Fico refém do que vou dizer e dessa intuição feminina e sem reconhecer que são elas que escolhem, são elas que entrevistam muitos, querem conhecê-los, recolher informação, como se soubessem tudo, donas da verdade e do futuro. Ela já sabia. E eu aqui como um cãozinho estúpido.

7ª parte, O Fraco

Maria

Os ombros quase descobertos deixavam que um pequeno pedaço da alça do seu soutien os contornassem, ficava eu a ver. Seria só para mim? O pescoço afagado pelo cabelo curto cheirava ao sorriso dela, Maria recortava-se delicada, só havia ela, onde quer que estivéssemos, suave, energética, determinada, orgulhosa, altiva, para mim ela dançava por detrás do balcão, e só o seu olhar de soslaio fazia com que parasse. Os volumes do seu corpo que a roupa deixava ver matavam-me, misteriosas. Como seria o seu corpo? Como seriam os seios? As costas? E isso era assim todo o dia. Mesmo quando esperávamos numa fila. Talvez não se importasse. Estaria a exagerar? No dia em que ela entrou no café foi como uma salto, um empurrão, um pontapé, “És tu” – diz o corpo todo – “encontrei-te”, desde o brilho nos olhos até ao sorriso, o meu estômago eram só pilhas, repetido o olhar sobre ela, recuando, voltando a olhar, em voltas e reviravoltas constantes, incontáveis.

O Fraco, 7ªParte

mulher

Entre mulher e homem, a vida cruza-se numa mescla inevitável de partilha, se há empatia, fervilham em candura e formosura mas por pouco tempo, bem certo, ou por períodos reduzidos, claro. São muito diferentes. Ela é perfeita. Ele quer mandar. Ela quer tudo no sítio enquanto não se apercebe do que a vida lhe trás, sempre informada, sabe o que é beleza sedutora, encanta-lhe a ribalta e o poder. Para alguns homens ela é por si a arte. Para outros uma máquina sexual. Para outros um fardo. Para outros um escravo.

Continue reading “mulher”