sem saber

Havemos de morrer sem saber quem fomos,

sem saber que defeitos tinhamos,

nem que maleitas viviam no nosso cérebro

nem o que os outros diziam de nós

nem todo o mal que fizemos

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sorte

que sorte, temos a morte

o que seria viver por aqui eternamente

vendo tudo igual, como há 500 anos atrás

ou mais longe

até os gregos nos dizem o mesmo, seja na literatura ou noutra expressão qualquer

que sorte, temos a morte

quatro mãos

Uma caixa é transportada, pouco antes de ser enterrada, são quatro os homens e quatro as mãos, um apressa-se a enterrá-la, ou melhor a enterrá-lo, o corpo, é um dos genros mais aziagos que nunca suportou o sogro, o outro não sabe ao que vai, é aguenta-te, é pau para toda a obra, sempre tudo ok, onde quer que esteja. O terceiro é neto e leva o corpo com o coração. Debatendo-se com o genro apressado, empurra e puxa para lá -“Vai lá com calma, o corpo já está frio”- A outra é uma mão impossível, não está lá. Vai substituída por uma estrangeira, havia de estar a do filho, ficou para trás, muito antes da morte deste pai, que vai agora a enterrar. Sem afecto, foi criado por este pai austero, de poucas palavras que nunca perguntou ao filho “como estás?”. Foi sempre, faz isto! Faz isto! Faz aquilo! São quatro as mãos e é um pai só, calado sempre, sorriso nunca, austero como sabia que a vida é, um inferno e uma ilusão, sempre.

morte

Parei e perguntei a direção. Eram dois jovens, setenta anos mais coisa menos coisa. Amigos de infância, à sombra, resguardados do Sol que já ia alto. Conversámos um bom bocado. Disto e daquilo e do comboio que já não passa faz muito tempo. Um dizia que muito bem , era barulho a mais, e para que parava homem se ninguém seguia, o outro, viu como isto fica triste, sem movimento, ninguém, vai tudo embora, até o comboio vai para mais de 30 anos, se não for quarenta diz o outro, isso já não apita desde 1975 rapaz. Tá a ver. Há muito tempo. O sacana do tempo passa depressa e não volta atrás.  No intervalo da conversa, olhei para o beiral, bem alto, o resto de telhado envelhecido e suplicante que lhes fazia sombra e fiquei preocupado. As telhas faziam equilíbrio. Ouvi-os mais um pouco e logo que pude desviei o tema: “Não têm medo que o telhado vos caia em cima?” – perguntei. “Você faz essa pergunta porque ainda é novo, ainda tem medo de morrer, nós já não… com a idade perdemos o medo.” Não consegui responder a tanta certeza, nem regatear, a conversa, a franqueza, a gentileza e o sorriso não se podem pagar.

há um lugar, que já existe,

pode ter casa ou não

pode ainda não estar construída

 

mas há um lugar

ou melhor

vários lugares

 

cada um irá ter um morto teu

uma daquelas pessoas a quem punhas o coração nas mãos

ou a quem o davas para que vivesse.

 

Não saberás se verás esses lugares alguma vez

mesmo que já tenhas passado por cada um deles.

irás odiar cada um,

quando ai estiveres com um morto teu à beira do teu sofrimento.

 

Quanto ao teu não,

falo do teu lugar

podes tê-lo conhecido ou não,

pode não ter casa ainda,

mas há, existe,

podes ter já passado por ele

podes não o conhecer

mas há

 

e nunca o saberás, nunca saberás que lugar é,

mesmo que já tivesses passado por ele,

 

e nesse lugar estará quem o vá odiar

a quem será indiferente

outros dirão “puta que o pariu”.

 

Quanto a ti, tu vais lá estar mas não saberás que lugar é

não saberás se o conheces

se já por ali passaste

mesmo que já tivesses ali passado

nesse em que te darão como morto

em que te pousarão como morto.

 

A partir dai, nada,

para ti nem o nada existe

nem mesmo existe “nem o nada existe”

 

Agora já sabes, esse lugar há, existe

há um tempo em que o vais ocupar sem nunca o saber.

 

Nenhum destes poderás destruir.

 

Saber isso será melhor,

não tens que te preocupar a não ser com a vida que tens para viver

e com aqueles com quem vives e fazes feliz.

Franz E., Começo, dezembro 2014

https://comecopoesia.wordpress.com/

agora e na hora da nossa vida

Acredite-se ou não num deus ou em deuses há uma experiência que se pode dizer religiosa. Religiosa no sentido em que é inefável, que se produz no cérebro, na mente e de que se tem consciência. Não tivessemos cérebro e pronto, tudo isto estaria resolvido. A morte que nos escuta, ou a eminência dela, a consciência dela, ou a realidade dela, provoca essa experiência religiosa. Vai de nos pormos a pensar. Num tempo para trás e para a frente, que começa e termina. Antes e depois nem o nada existe para quem falece. Para ti também. Se isto começa onde começaram os outros atrás de mim e onde acabará. Certo que não falamos no infinito. Mas falamos do começo. Para a frente estarão outros que te vão sucedendo, faz mais sentido. Para trás é que a porca torce o rabo. Conceber que algo vem de nada, faz moça, nem a Ciência o admite quanto mais.

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tempo

vieste de um tempo que não é tempo, vais para um tempo em que este tempo não existe. quando te vais já não importas. a tua cova é um balde de lixo. e que interessa isso, se te vais ao lixo? no lixo, quando por lá navegares, nem o nada existe. nem o existe, existe. por isso, vale viver agora, depois nem viver existe.

morte

essa morte que ai vem é a tua. não importa se deixaste por fazer. se não terminaste alguma coisa. se deixaste o abraço nas intenções, ou o beijo no pensamento. dai em diante. da tua morte para a frente. isto que lês. o que ouves. aquilo que sentes. agora ou antes. nada existe. nem mesmo o não existe existe. nem mesmo o vazio. nem o que é escuro. nem as trevas. nem Sol. nem Terra. nem o nada existe. nem o nada de nada existe. pfiu. foste. nem o foste existe. nem guerra. nem caminho. nem o que deixaste existe. para ti nada. como se o nada não existisse. nem mesmo o nada do nada existe. nem o pfiu existe. põe-te a caminho pá. sentado não te serve.

no momento

Ao morrer, o que o surpreendeu mais não foi o facto, foi a evidência, “Deus não existe”. Era católico. Ficou também a saber que sem essa fé não lhe teria sido possível sobreviver. Deixou-se ficar como foi toda a vida, católico. Que interesse teria de mudar neste preciso momento, ao morrer, se para onde ia, não havia lugar, nem tempo, nem passado, nem futuro, e menos ainda presente. Nada. Nem mesmo nada havia.

– “Estou a escrever.” – rosnei – “não vês!?”

-“Estou a escrever” – Rosnou – “não vês!?”

– “Não páras com essa treta!” – Arremessou – “Para que te serve isso?” – Melindrou-o ela logo a seguir. Era mestre nesse ofício. Ele calou-se, como de costume, mas pensou e disse o que pensou, no próprio silêncio, claro. “Verdade, para que escrevo?” – Pensou. Para a fama, pode ser uma resposta. Para dizer que esteve aqui, nesta bolha-espaço-tempo, que não existe, se não neste universo, que é em si essa bolha. E ao morrer, não saberá sequer que está morto. A morte é um nada tão nada que nem saberá que morto está. Nem que a vida-bolha existe. Porque escrevo então? Para ser útil a alguém, nem que seja a um apenas. Imagina que dará alento a outro, ou outra qualquer, perdida ou perdido, achará caminho no que deixou escrito. E ficou-se nesta resposta, solidária e politicamente correta. Se a desse a um jornalista, aquando da fama, numa entrevista entre uma conferência e uma viagem para outro continente, a fama em si, ninguém a julgaria errada, decerto.

Queria ser escritor, há muito seguia esse desejo, mas não convencera ninguém, sem dotes especiais, sem os conhecimentos, que é arte difícil, como qualquer arte, persiste, de facto, insiste e não esquece de escrever, de quando em vez um pensamento, ou uma ideia, daqueles que fluem sem anúncio, escreve num resto de papel, num canto de um guardanapo, ou de um bilhete de cinema. Talvez que a resposta seja outra: a de ficar aqui, firme como rocha de mar, ou de serra, onde também as há, preparado com palavras apenas, mas preparado, para o que vem.

“E tu estás ai, ou vais fugir, ficando ai, descer os braços e lamentar que o tempo seja este?”