morte

Parei e perguntei a direção. Eram dois jovens, setenta anos mais coisa menos coisa. Amigos de infância, à sombra, resguardados do Sol que já ia alto. Conversámos um bom bocado. Disto e daquilo e do comboio que já não passa faz muito tempo. Um dizia que muito bem , era barulho a mais, e para que parava homem se ninguém seguia, o outro, viu como isto fica triste, sem movimento, ninguém, vai tudo embora, até o comboio vai para mais de 30 anos, se não for quarenta diz o outro, isso já não apita desde 1975 rapaz. Tá a ver. Há muito tempo. O sacana do tempo passa depressa e não volta atrás.  No intervalo da conversa, olhei para o beiral, bem alto, o resto de telhado envelhecido e suplicante que lhes fazia sombra e fiquei preocupado. As telhas faziam equilíbrio. Ouvi-os mais um pouco e logo que pude desviei o tema: “Não têm medo que o telhado vos caia em cima?” – perguntei. “Você faz essa pergunta porque ainda é novo, ainda tem medo de morrer, nós já não… com a idade perdemos o medo.” Não consegui responder a tanta certeza, nem regatear, a conversa, a franqueza, a gentileza e o sorriso não se podem pagar.

um casal maior

Há uma casa. Mesmo em frente à minha. Esteve vazia e agora sai de lá uma senhora que caminha com dificuldade e um senhor que regressa todos os dias de manhã com um saco de plástico pendurado na mão descaída, a baloiçar como se não fosse precisar dele. Bem cedo. É quando o vejo mais vezes.

Chega assim a casa, todas as manhãs, depois lhe terem guardado o pão no café ali ao lado. Regressa ao café a meio da manhã para trazer o jornal. Depois de uma conversa inútil, algumas vezes útil, o café frio mas não quente, é preciso exatamente doze minutos para que esteja na temperatura ideal, vai desfiando conversa. Quase sempre sem se saber do que se fala. Nem sequer o que se passou. A maior parte das vezes sem consequências. Outras vezes, e ai sim, interessa, a partir de históris de vida. Se são as suas melhor, são aquelas em que é perito.

Dizia. Se vem história pelo meio, daquelas que sabem bem, e que já contam com muitos anos e acrescentos pelo meio, então interessa. São poucos minutos, mas cada um vai dizendo até que o ponteiro do relógio lá no alto, quase junto ao teto, e depois de um olhar rasante diz que é tempo de ganhar rumo para outro lugar, mesmo que não seja longe dali. Com o jornal em punho, senta-se no automóvel estacionado em frente de casa, murmura alguma coisa enquanto o folheia, não sei o quê, só vejo os lábios moverem-se. Uma atrás da outra, cada página seu tempo, se interessa fica mais um pouco, se não, folheia e mexe os lábios, com os óculos segue as gordas, ou melhor os titutlos a cheio, sentado no passado que era quando dava à chave, ouvia o roncar do motor e passeava com a mulher que agora quase não anda.

Imagino que devem ter dado o primeiro beijo ali e até alguns gemidos mais enamorados. Ele fica mais entusiasmado, mexe mais, quando ela se senta ao lado. Guarda o jornal e fala com ela como se fossem em passeio. Imagino até que lhe vá a contar alguma das suas viagens mais longas e românticas. Gesticula e aponta para fora, faz arcos com os braços e vai olhando para ela. Sorri-lhe. Ela está quieta, não responde, olha para ele, mas pouco, já tinha sido um martírio sentar-se ali, quanto mais agora estar a responder à felicidade do homem, às ilusões dele. Nunca se sabe quando terminam este namoríco, ou a viagem. Vejo o carro vazio a maior parte das vezes, e quase sempre no mesmo lugar. O automóvel nem é assim tão velho, parece mais usado do que idade por ter mais remendos do que o habitual. Um dia desses proponho-lhes conduzir-lhes o carro a um lugar que lhes apeteça.