faço alguém feliz?

Hoje fui a ver por onde andei. Lugares que ocupava todos os dias, as mesmas caras, as mesmas árvores, a mesma pedra desalinhada junto à esquina onde uma raiz se enterra, o mesmo buraco de terra, o mesmo caixote do lixo, o mesmo portão verde, o mesmo cão cansado, o mesmo bom-dia, a mesma mesa de café, as caras conhecidas da altura. Vezes e vezes e vezes repetidas, até que parti e revisito agora, muito tempo depois. Em cada rua, em cada beco, em cada casa, em cada passeio, em cada calçada tantas vezes pisada, em cada retiro onde passei, onde namorei, onde trabalhei, onde acompanhei, onde agoniei, onde sofri, em cada esquina onde segurei uma mão minúscula, e falei, falámos, onde brinquei com ela, onde a segurei ao colo para ver aquele gato estendido, onde lhe sorri, onde ouvi a sua gargalhada sincera, só me fica uma pergunta: “terei sido feliz?” e outra maior “Terei feito alguém feliz” e nasce outra agora “Faço alguém feliz?”

tempo que fica

Sempre. Há um tempo que fica. Sempre. Sempre. Um espaço que fica. Sempre. Sempre. Sempre. Para trás. Bem para atrás. Sem sobreviver à memória. Morre sem mágoa, sem tréguas. Um lugar a que nunca mais iremos voltar. Como se morrêssemos também ali, só ali, um ínfimo tempo, um lugar-tempo minúsculo, que serve apenas para continuar este corpo direito ao tempo-lugar seguinte. Naquele lugar. Aparente. Sem importância óbvia. A não ser a que me continuou. Mas para o qual morri. Ontem estivemos lá, hoje há quem continue a passar por ali, um lugar que vive depois de mim. Olha a importância que eu tenho? Queria viver em todos os lugares, e dentro de todos, como se sem mim estivesse a salvação deste planeta ignóbil e outras tantas vezes humano, e que queríamos sempre humano como um mar calmo. E se é humano, como devíamos saber e aceitar, tem revolta e escaramuça por dentro. Olhei os mesmo lugares que vão ser vistos por outros depois de mim, que continuam sem mim. Passei por lá sem mudar uma peça que fosse, e o que alterei, foram olhares ou gestos, e o que alterei foi em mim, adicionei um lugar que não é mais um, mas um a que desejamos voltar, como quem quisesse estar em todos os lugares ao mesmo tempo, em todos os humanos ao mesmo tempo. Queria ser um deus, um conceito secular  tangido por um ateu.