uma luz, nesse candeeiro

bem sei que havia uma luz, e que por isso há, noutro lugar, mas que eu queria era que ainda essa luz estivesse onde estava. avessos que somos há mudança, que fosse o mesmissimo candeeiro de outrora, por cima da mesma porta. Havia essa luz, num pequeno candeiro, cintilante, quase a apagar-se, reticente, fizesse o tempo que fizesse, no meio dessa tempestade da mais violenta que imagines, mas que estava lá, à tua chegada, no meio da chuva intensa, do vento bruto e quase sem visibilidade, essa pequena luz termitente, estava, dentro desse candeiro por cima de uma porta que se abriria, qual magia, fosse qual fosse a hora a que chegasses, fosse qual fosse o estado em que chegasses, fizesse o tempo que fizesse. Essa porta abraçava-te desde que fosses tu.

lugar

Cheguei a um lugar. Sei. Mas, não sem esforço e mágoa. É mesmo assim. Fui atrás da liberdade sem nunca ter estado preso, a não ser preso na adolescência, preso sem ser prisioneiro, preso sendo eu próprio o carcereiro. Sei. Hoje. Sei. Liberdade é uma palavra, sorrateira e forte, tão forte que leva pessoas a morrerem por ela ou a viverem por ela, ou com ela. Sem o saber, porque não pode, o comboio seguia os trilhos, a mim chegavam relâmpagos de memórias, das paisagens ou das pessoas, do que disseram e do que fizeram, elas teriam outras memórias e estas carruagens, as mesmas ou não, por ali tinham passado vezes sem conta, à mesma hora, agitando a paisagem insensível a esse vaivém sobre ferro em linhas afagadas à pedra. Lugares assim acessíveis, tão acessíveis, todos os dias, bastava que apanhasse um. Chego a invejar máquinas, estas em particular. Reviam todos os lugares que eu queria, lugares ocupados uma única vez em toda uma vida: nunca mais regressaremos ali, no mesmo tempo, nem exactamente ao mesmo lugar. A doce e amarga felicidade das viagens. Ao certo, mesmo ao certo, é que esses perfumes de saudade com sabor a terra são da longa separação.