medo

o que ansiamos é não ter medo de nós próprios, não ter medo de sermos quem somos, das nossas dúvidas, dos anseios, das perguntas, dos defeitos, sem desprezo por quem somos. Quando é possível, somos felizes.

Esta manhã

nesta manhã não apetece dizer nada. Nem os vizinhos se ouvem mas as chaminés fumegam. Só alguns sussuros, ao longe. Está tudo silencioso e satisfeito. Apetece parar à janela.

O pequeno almoço avança. Sem agrafos entre as palavras ditas, sem clips entre os verbos, sem garras entre os adjetivos, sem lágrimas entre os sorrisos. Está tudo limpo, tão limpo quanto é possível.

não vás

não estou triste nem contente. Vivo naquela alegria aparente de quem não pode [não consegue] [não se permite] [não perscruta caminho para] fugir desta tristeza. Olhas para mim e estou a sorrir. Falo até. Gozo, brinco com quem passa, mando umas larachas, e de quando em vez, chego mesmo a atirar piropos. Os outros devolvem a simpatia. Sou social. Pareço feliz. E até o sinto. Mas sinto-me triste e até o sinto também. Não vás que preciso de falar e não tenho com quem. Isto de viver em adulto é estranho. Não tens com quem desabafar até um certo nível. Em jovem, desabafavas com quem estivesse e isso era normal. A um adulto não se permite. Tens conhecidos, falas com eles, mas não desabafas. Tens um ou outro amigo. Falas com eles, mas não lhes contas tudo. Conclusão, não se atira cá para fora a merda toda. Talvez seja por isso que há tantos a escrever. Acaba-se por se viver em vidas repartidas, com partes de um infelicidade profunda e outras, misturadas com aquelas, de uma alegria extrema. E se quebras umas, perdes as outras. E essas outras são até, tão ou mais importantes, que as outras. A solidão entranha-se ao mesmo tempo que as pessoas à tua volta. Somos mais sós do que parecemos.

caminho

enredados nas palavras que devem ser, quando as que são, são as nossas. Feliz de quem tem coragem, de quem se arranca, feliz de quem, assustado, arrasta o medo noite dentro, fazendo caminho.

faço alguém feliz?

Hoje fui a ver por onde andei. Lugares que ocupava todos os dias, as mesmas caras, as mesmas árvores, a mesma pedra desalinhada junto à esquina onde uma raiz se enterra, o mesmo buraco de terra, o mesmo caixote do lixo, o mesmo portão verde, o mesmo cão cansado, o mesmo bom-dia, a mesma mesa de café, as caras conhecidas da altura. Vezes e vezes e vezes repetidas, até que parti e revisito agora, muito tempo depois. Em cada rua, em cada beco, em cada casa, em cada passeio, em cada calçada tantas vezes pisada, em cada retiro onde passei, onde namorei, onde trabalhei, onde acompanhei, onde agoniei, onde sofri, em cada esquina onde segurei uma mão minúscula, e falei, falámos, onde brinquei com ela, onde a segurei ao colo para ver aquele gato estendido, onde lhe sorri, onde ouvi a sua gargalhada sincera, só me fica uma pergunta: “terei sido feliz?” e outra maior “Terei feito alguém feliz” e nasce outra agora “Faço alguém feliz?”

felicidade

“O consumo não está concebido para nos dar felicidade.” Gilles Lipovetsky

resgatar o tempo feliz

Isto repete-se vezes sem conta. Umas atrás das outras. Resgatar ao tempo os momentos em que fomos felizes ou parar para sempre neste momento em que somos felizes. Não avançar um minuto que fosse em diante. Outras vezes, resgataríamos apenas uma pequena parte do tempo, porque no geral fomos infelizes. Se isso fosse possível, teríamos de poder seleccionar independentemente do outro. Tenho a certeza que para o outro, o meu tempo feliz não seria o dele ou dela. É quando nos sentimos sós, empurrados para o lado, ignorados por quem amamos que sentimos a pedra nas costas e procuramos soluções absurdas, como esta: a de resgatar o tempo. A solução está mais próxima: aceitar as tormentas e procurar fazer melhor.