fama

Se a coisa não presta põe-lhe muita luz e som, cor e floreados, publicidade e video, que isso vende na mesma. Bem verdade que há muita outra coisa submersa, sem dar nas vistas, de enorme qualidade. As duas ao mesmo tempo já é mais dificil. Falo de música que até robots tem, mas a música viste-la, e outra música que só tem voz ou instrumentos e a coisa deixa-nos nas nuvens. Não a publicitaram mas ainda bem que estamos a ouvi-la. E vai assim para outras artes. O que muito é famoso, e na maior parte dos casos, muito mau em conteúdo. Vê-se muito bom e que está escrito numa folha de papel e pequena. Cada um decide o que ver e o que ler e o que ouvir.

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É essa pressão de todos os dias, em todos nós, o sucesso, seja lá o que cada um entende que seja, ou porque quer ser rico, ou porque quer ser engenheiro ou porque prefere escrever, ou porque quer ser famoso.

A empresa quer ter sucesso. O saldo tem que ser positivo, nem que seja maquilhado. A dúvida é mesmo: alguma empresa, alguma vez teve saldo positivo? Acho que não. A falência deixa sempre uns com saldo positivo e os outros que foram roubados. Há uma fatura que vem depois. Portanto vão ficando uns ricos e os outros mais pobres. A lógica de um empresa não é a lógica da generosidade. É mesmo assim. Se não o fizerem terminam como empresa. E nos livros  o mesmo, Que interessa a qualidade da escrita ou da reflexão que faz ou do que dá aos outros ou do autor, interessa que venda.

Para quem escreve, a fama é uma tragédia sempre no mesmo ato, dai os escritores, quando aparecem são já de tenra idade. Viajaram anónimos, reflectiram e podem dar agora, libertam a generosidade da sua escrita. Que importa que escrevam bem ou mal, interessa que deixem o que pensaram, libertem o que viram, o que concluiram. E quanto à honestidade, não te faz rico mas sossegado. Sais à rua sem medo. E sentaste numa esplanada sem reservas. Não há nada melhor que viajar anónimo.

escrever

Está contigo e com tantos outros. E sabe bem um prémio, nem que seja o de um  amigo que diz: “gosto do que escreveste!”. É mesmo bom. Tantas horas de volta de uma parágrafo, e até funcionou. Que bommm!

Essa coisa da escrita esteve, está e estará, nem que seja para uma pessoa só. Só útil para um. E gostamos de o fazer naqueles momentos inspirados. Depois de um café. Numa esplanada. Ou numa biblioteca acolhedora. Bem queríamos que fosse útil. Uma história serve para dizer aos outros o que se passou: “comigo foi assim”. Pode ajudar contar.

É certo que bem gostamos que nos leiam. O outro extremo é a fama. Quase todos os humanos a querem. Mas tem amargo. Há quem goste: a notoriedade. Embora signifique “viver da escrita”. Há muito poucos que realmente vivem disso. Os seus nomes passaram a ser uma marca. Vende. Muitos deles queixam-se exactamente disso, são uma coisa.

Quanto ao trabalho, é para lá de muito, mas não interessa: “Quem corre por gosto não se cansa”.

– “Estou a escrever.” – rosnei – “não vês!?”

-“Estou a escrever” – Rosnou – “não vês!?”

– “Não páras com essa treta!” – Arremessou – “Para que te serve isso?” – Melindrou-o ela logo a seguir. Era mestre nesse ofício. Ele calou-se, como de costume, mas pensou e disse o que pensou, no próprio silêncio, claro. “Verdade, para que escrevo?” – Pensou. Para a fama, pode ser uma resposta. Para dizer que esteve aqui, nesta bolha-espaço-tempo, que não existe, se não neste universo, que é em si essa bolha. E ao morrer, não saberá sequer que está morto. A morte é um nada tão nada que nem saberá que morto está. Nem que a vida-bolha existe. Porque escrevo então? Para ser útil a alguém, nem que seja a um apenas. Imagina que dará alento a outro, ou outra qualquer, perdida ou perdido, achará caminho no que deixou escrito. E ficou-se nesta resposta, solidária e politicamente correta. Se a desse a um jornalista, aquando da fama, numa entrevista entre uma conferência e uma viagem para outro continente, a fama em si, ninguém a julgaria errada, decerto.

Queria ser escritor, há muito seguia esse desejo, mas não convencera ninguém, sem dotes especiais, sem os conhecimentos, que é arte difícil, como qualquer arte, persiste, de facto, insiste e não esquece de escrever, de quando em vez um pensamento, ou uma ideia, daqueles que fluem sem anúncio, escreve num resto de papel, num canto de um guardanapo, ou de um bilhete de cinema. Talvez que a resposta seja outra: a de ficar aqui, firme como rocha de mar, ou de serra, onde também as há, preparado com palavras apenas, mas preparado, para o que vem.

“E tu estás ai, ou vais fugir, ficando ai, descer os braços e lamentar que o tempo seja este?”

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é uma fechada linha que recomeça na mesma ânsia: a fama. Quando a vida é feita de pequenos nadas que nada têm que ver com a fama. Quando a vida se torna essa linha fechada é o desespero. Aflitivo claro. Não o queremos mas a fama cobre-nos as pernas de corrida e lá vamos, cegos. Completamente cegos. Cegos sobretudo aos nadas. Os nadas que são as nossas vidas. E em todos os momentos, maus e bons, ou assim assim, existe um conforto porque ninguém tem nada a dizer, todos temos para contar, para ensinar, para ajudar, para trocar, para encontrar. O conforto é mesmo isso: a vida são pequenos nadas. O teus nadas são únicos, não os guardes só para ti, alguns podem ver a luz do dia.