Escrever porquê?

As palavras fogem e queimam, e tarde se descobre a vontade de escrever mais uma palavra, mesmo que encaixe retorcida esbaforida quase próximo da loucura, no minuto antes de terminar o parágrafo. A cada uma vais tu perguntando que merda faço eu se escrevo tão mal e tudo sai tão a ferros e há quem o faça tão deliciosamente… 

Que interessa isso, se a escrita, o ler, o ouvir a leitura, te salva da loucura todos os dias, que interessa isso!? Bem sei que interessa se a tua intenção é ser um escritor, pertencer a uma das mais altas castas que se erguem ao mais alto nível do nível mais elevado do ser mais alto que existe acima das mais altas alturas da sociedade… Bah! Não interessa nada rapaz. Nada. 

As escalas, métricas e réguas são de outro lugar, da Ciência, por exemplo, e lá ficam muito bem. Tu que escorregas vida adentro todos os dias, do mesmo modo que todos esses altíssimos escritores, vão todos vida adentro com as mesmas relíquias. A diferença está na fama. A tua é zero e continuará. Mas não estás louco, como os famosos também não estarão. Só não escreverás deliciosamente nem terás fama. Só isso. Bom, há mais do que deliciosamente, há uma escrita que te deixa depois, e não és o mesmo, não. A minha nunca fará isso, mas a desses que escrevem, que dão a sua vida por essas páginas de magia e ao mesmo tempo eternas, obrigado. Sem isso era a loucura.

Gabriel Gracia Marques

Se me pudesses ouvir daqui, se eu te pudesse dizer qualquer coisa, se fosse possível viajar no silêncio, de que valeria, o que te diria? Nada que já não soubesses. Os teus livros são uma delícia humana. Também te diria o que já sabes e pelo que lutaste. Nos lugares de quem manda é o desumano que ocupou as prioridades. E se viajamos, terra dentro, lá encontramos um sorriso, uma ajuda, um apreço, humildade. E se viajamos nos teus livros, é isso que lhes fica no fim, o humano, e para isso, não é preciso dinheiro, nem a miséria, nem a ganância, nem o desespero do que vivemos aqui hoje. O outro. Estar para o outro. Isso é ser. Volta e meia lá tem o povo que se erguer e repor o que falta. É o que este planeta precisa agora e que a tua geração lutou tanto. Ser. Colocar o humano no palco. Agora tudo apenas parece ser. Nada (ou pouco) é. Se não formos à rua, isto vai esvaziar-se, esvair-se pelos cantos das gravatas vaidosas sabedoras de pouco mais do que nada. Agora é reler os teus livros e voltar à rua para repor o que é de todos.

Quanto à conversa, fica para no silêncio de cada leitura dos teus livros. Ano após ano. No que nos dizem, no que nos vão dizendo. Talvez que nos estendessemos numa longa conversa. Quem sabe?

Agradeço-te.

insatisfação

a vida tem uma ligeira insatisfação. E depois vamos visitando os nomes que vivem no imaginário da escrita, da nobreza intelectual e pedante, para descobrir que a nossa é a vida deles e que a deles a nossa. Sem mais nem menos.

Arquipélago de Gulag – A.Soljenitsine

Aleksandr Solzhenitsyn
Aleksandr Solzhenitsyn

Um livro que nos apaga por algum tempo. O terror é possível? No nosso tempo?

Sim, é possível e é recorrente no tempo e no espaço, acontece, aconteceu e vai acontecer, aqui ou ali, neste ou noutro continente.

RTPN – Sinais do Tempo: Como é que o manuscrito sobreviveu?

Wikipedia: Arquipélago de Gulag.

Blog: Da Russia, José Milhazes

O José Saramago tem um blog aqui

Descobri o José Saramago pela forma como escreve e senti as pessoas em Levantado do Chão, senti o ambiente e o sentido dessa escrita, a coerência, o rigor e o propósito: como é possível, pela escrita, fazer sentir aquilo que outras pessoas de outra distância, de outro lugar, sofriam, sentiam, pensavam e viviam? Não sei se é melhor ler os livros ou ler o blog, por mim fico-me pelos livros, que os releio com frequência, ao blog dou-lhe uma olhadela desconfiada:

http://caderno.josesaramago.org/