escrever

Há quem diga que é preciso ser louco, até mesmo doente, para se escrever alguma coisa que valha a alguém, agora ou mesmo daqui a décadas. E que bem melhor é se te mantiveres anónimo enquanto escreves. Se a celebridade te atinge lá se vai a independência. Dizem. Sei lá. Vai dai fico a pensar que tudo o que fazemos com algum significado cabe numa mochila pequena porque o que importa é mesmo o que és agora aqui nesse mesmo momento. E se pelo meio escreves, melhor para ti, pelo menos reorganizas-te, mesmo que o que escreves não valha nada, que é o mais certo.

Escrever porquê?

As palavras fogem e queimam, e tarde se descobre a vontade de escrever mais uma palavra, mesmo que encaixe retorcida esbaforida quase próximo da loucura, no minuto antes de terminar o parágrafo. A cada uma vais tu perguntando que merda faço eu se escrevo tão mal e tudo sai tão a ferros e há quem o faça tão deliciosamente… 

Que interessa isso, se a escrita, o ler, o ouvir a leitura, te salva da loucura todos os dias, que interessa isso!? Bem sei que interessa se a tua intenção é ser um escritor, pertencer a uma das mais altas castas que se erguem ao mais alto nível do nível mais elevado do ser mais alto que existe acima das mais altas alturas da sociedade… Bah! Não interessa nada rapaz. Nada. 

As escalas, métricas e réguas são de outro lugar, da Ciência, por exemplo, e lá ficam muito bem. Tu que escorregas vida adentro todos os dias, do mesmo modo que todos esses altíssimos escritores, vão todos vida adentro com as mesmas relíquias. A diferença está na fama. A tua é zero e continuará. Mas não estás louco, como os famosos também não estarão. Só não escreverás deliciosamente nem terás fama. Só isso. Bom, há mais do que deliciosamente, há uma escrita que te deixa depois, e não és o mesmo, não. A minha nunca fará isso, mas a desses que escrevem, que dão a sua vida por essas páginas de magia e ao mesmo tempo eternas, obrigado. Sem isso era a loucura.

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As palavras queimam e fogem. E o escritor também. Foge a sete pés. Não se lembra de uma, que se encaixe, mesmo que retorcida esbaforida louca. Ou então cai-lhe uma vinda de não sei de onde, num momento qualquer sem lógica nenhuma. Como raio vieste tu aqui parar!? Lá se pode terminar o parágrafo, a frase, essa simpática que se deitou meliflua como seda. Ah, se isso acontece, morremos.

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o teu

Pois. Esse é mesmo o teu caminho. Sim. Tu que agora me lês e que acordas a pensar da infelicidade da sorte, aquilo que poderias ter feito e o que fizeste, por onde andaste e não devias, o que és e não queres, onde estás e não desejas, o que tens e poderias ter (o que menos interessa). Aceita. Onde estás, o que fazes e o que és. Se pensas, faz o que pensas. Mas aceita o que és assim, ponto.

setembro 2016, Franz E.

vais-te despir em público?

é mesmo isso. escrever é como despir-se em público. ou melhor. quando se publica é mais assim. despir-se em público. nem todos o conseguem. assumir-se. aceitar-se. tal qual. a maior parte das vez escusamo-nos por detrás do “se calhar não é bom”, para quê publicar. mas é mais, não tenho coragem de dizer o que sou e o que penso e de o defender. claro.

escrever

Está contigo e com tantos outros. E sabe bem um prémio, nem que seja o de um  amigo que diz: “gosto do que escreveste!”. É mesmo bom. Tantas horas de volta de uma parágrafo, e até funcionou. Que bommm!

Essa coisa da escrita esteve, está e estará, nem que seja para uma pessoa só. Só útil para um. E gostamos de o fazer naqueles momentos inspirados. Depois de um café. Numa esplanada. Ou numa biblioteca acolhedora. Bem queríamos que fosse útil. Uma história serve para dizer aos outros o que se passou: “comigo foi assim”. Pode ajudar contar.

É certo que bem gostamos que nos leiam. O outro extremo é a fama. Quase todos os humanos a querem. Mas tem amargo. Há quem goste: a notoriedade. Embora signifique “viver da escrita”. Há muito poucos que realmente vivem disso. Os seus nomes passaram a ser uma marca. Vende. Muitos deles queixam-se exactamente disso, são uma coisa.

Quanto ao trabalho, é para lá de muito, mas não interessa: “Quem corre por gosto não se cansa”.

apetecer apetece

de facto, apetecer apetece, mas agora escrever é mesmo para esperar alguns meses

humano

Apetece-me escrever, porque não consigo falar… porque estou assustado, melhor desiludido, conheci um mundo onde o objetivo era o outro, o mundo que cresce ao lado desse parece de plástico, cheio de fronteiras, coberto de limites e sem erros.

…se alguém não compreende a matemática, não vem mal nenhum ao mundo, compreenderá outras coisas. Há milhares de anos que andam sábios a tentar perceber.

Conheci uma mulher que nem uma letra sabia escrever nem ler sequer, mas teve 11 filhos, foi maltratada, sofreu, e todos seguiram pela vida com sucesso, nunca a esqueceram, tinha sempre a casa cheia. Não via TV e não conheceu a internet, nem o computador. Conhecia bem a terra do seu quintal. Desconfio que dava nomes a todas as alfaces, nabos, nabiças, cenouras, coelhos e galinhas, gatos e ratos, cães e burros que por ali viveram. Tinha um coração maior. Era humana.