Não levo saudades

“Não levo saudades desta vida” – disse ele e escrevo eu.

“Não diga isso. Tem neta, filhos saudáveis, mulher dedicada, que mais quer?”

Aproximou-se tão perto, baixou a voz – “Estou aqui na vertical, nem sei como, não há canto do corpo que não me doa, nem mesmo a alma. Tenho setenta anos e trabalho 15 horas por dia. Atrás de um balcão, aturo má educação, nem vejo Sol. Estou cansado. Muito.” – encostou-se ao balcão atrás dele.

“O mais espantoso, no meio desta atrapalhada toda, funciona. Isto funciona, mesmo no meio do caos.” – Disse-lhe o outro e escrevo eu.

 

liberdade

sem liberdade é impossível a criação, seja científica, literária, artistica, ou em tantas áreas como a educação, a cultura ou a engenharia. é verdade que também é preciso estar emocionalmente feliz, confiante e orgulhoso. A primeira são as pessoas que a fazem, a segunda és tu que procuras. Depois acontece. Refiro-me à criação, acontece.

afeto

no passado também havia políticos corruptos, roubos, falta de respeito, assassínios, estrelas viciadas e má educação. Hoje, o mesmo, mas bem mais visível: as audiências constroem-se com isso e os jornais vendem por causa disso. É um negócio. O afeto não existe.

A marginalidade, essa tem referências, tem valores, tem cultura e hábitos endémicos: por exemplo, um rapaz que não dorme em casa se não entregar 50 euros ao pai. Uma criança com 13 anos que tem de cuidar dos irmãos porque a mãe sai à segunda e volta na sexta. Casas em que ninguém sabe a que horas se come e quem come, e quem faz a comida. Casas em que o jantar é acompanhado pela televisão. Casas em que o silêncio invadiu a família, apenas se ouve o tilintar dos talheres e o som mudo das notícias, invariavelmente as mesmas. E aqui o afeto não dorme. Continue reading “afeto”