crise?

Estamos em crise, sempre! Não vale a pena esconder. Antes e depois da idade média, durante o período moderno, sempre! O que difere é a proximidade da crise, essa sensação mais ou menos forte, consoante a ligação que temos às notícias, ao que os outros dizem e pensam, à maré de opiniões que vai falando. Na maior parte dos casos, é sempre menos do que sentimos. Há as excepções, quando a crise sai das conversas e chega ao bolso e logo a seguir à mesa. Haja farinha e água, legumes e arroz que alguma coisa se arranja. E se não houver. São aqueles, os responsáveis, os que nos trouxeram aqui. E se alguém fizer alguma coisa por isso. Encontraste o herói seja digno ou não, amante ou não da liberdade e da tolerância. São esses que passam, os que ficam são os outros, os da tolerância e da liberdade. è quando mais se cria, é quando mais se vive, se sorri.

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– “Estou a escrever.” – rosnei – “não vês!?”

-“Estou a escrever” – Rosnou – “não vês!?”

– “Não páras com essa treta!” – Arremessou – “Para que te serve isso?” – Melindrou-o ela logo a seguir. Era mestre nesse ofício. Ele calou-se, como de costume, mas pensou e disse o que pensou, no próprio silêncio, claro. “Verdade, para que escrevo?” – Pensou. Para a fama, pode ser uma resposta. Para dizer que esteve aqui, nesta bolha-espaço-tempo, que não existe, se não neste universo, que é em si essa bolha. E ao morrer, não saberá sequer que está morto. A morte é um nada tão nada que nem saberá que morto está. Nem que a vida-bolha existe. Porque escrevo então? Para ser útil a alguém, nem que seja a um apenas. Imagina que dará alento a outro, ou outra qualquer, perdida ou perdido, achará caminho no que deixou escrito. E ficou-se nesta resposta, solidária e politicamente correta. Se a desse a um jornalista, aquando da fama, numa entrevista entre uma conferência e uma viagem para outro continente, a fama em si, ninguém a julgaria errada, decerto.

Queria ser escritor, há muito seguia esse desejo, mas não convencera ninguém, sem dotes especiais, sem os conhecimentos, que é arte difícil, como qualquer arte, persiste, de facto, insiste e não esquece de escrever, de quando em vez um pensamento, ou uma ideia, daqueles que fluem sem anúncio, escreve num resto de papel, num canto de um guardanapo, ou de um bilhete de cinema. Talvez que a resposta seja outra: a de ficar aqui, firme como rocha de mar, ou de serra, onde também as há, preparado com palavras apenas, mas preparado, para o que vem.

“E tu estás ai, ou vais fugir, ficando ai, descer os braços e lamentar que o tempo seja este?”

mudança

Não sou futurologista. E se fosse, fechava bem os olhos, cerrava-os com os dentes, mesmo que fizesse figura de parvo, só para não o ver, ao futuro digo eu.

A mudança é tal que nem a consigo imaginar. Portugal daqui a dez anos? Eu imagino-a grande, mas parece-me ainda maior.

Já a viram. Já a tentaram vislumbrar. À mudança digo eu. Corrupção, transparência, justiça, educação, parlamento, política… e não falo apenas dos políticos, falo de todos, de tudo o que em cada um tem de mudar.

E a coragem para fazer isso? É a mesma coragem de um Vasco da Gama e de quem o acompanhou. É a mesma coragem de um Salgueiro Maia e de quem o acompanhou. É a mesma coragem de Aristides de Sousa Mendes e de quem o acompanhou. É a mesma coragem de qualquer um dos anónimos portugueses que já habitaram Portugal ou que o tiveram de deixar. São tantos corajosos. Agora chegou a nossa vez.

E se tiver de haver porrada para fazer essa mudança? Ai é que a coisa começa a deixar de ter graça.

desgovernados

Daqui a dez anos o país não será o mesmo. Será melhor? Será mais pobre?

Acredito que será melhor, e não terá gente desta no governo. Quem nos desgoverna são meia-dúzia de homens de murro na mesa que não têm qualquer credibilidade. Como se atrevem a dar o murro na mesa, os outros, os sérios, acanham-se.

Sei que a maioria dos políticos não são corruptos. Mas basta essa meia-dúzia para dar cabo da coisa. Nunca trabalharam na vida, e os esquemas são demasiado óbvios.

Acredito que a classe política vai mudar porque os portugueses vão mudar. Sei também que cada um de nós foi, à sua maneira, desgovernado. Vamos arrumar a casa.

Acredito que estes desgovernantes insensatos dos últimos 15 anos não vão aparecer outra vez. Já sabemos para onde nos levam: 500 mil milhões de euros de dívida.

crise

O país está mais roto e rombo do que imaginávamos. A barca só não afundou porque lhe puseram umas boias. Bem podemos ir à rua, lançar-mo-nos contra as grades, empurrar a porta até escancarar a democracia, que das boias não nos livramos tão depressa…

De que modo temos sido governados? De que modo!? As expectativas que foram criadas? Soubera eu quem eram os comandantes desta barca e não teria embarcado nela. Não me teria endividado a pensar que o meu ordenado seria o que o contrato que assinei me dizia. Não fosse eu ingénuo e teria percebido que quem me governa não era pessoa de bem. Apenas parecia ser. Ser ou não ser?, a velha questão. Não eram, pareciam ser. Só isso. E nós, iludidos atrás da ingenuidade. Algumas dessas gravatas vaidosas que se saracoteiam nos corredores iluminados eram afinal gatunos. Vem-me à cabeça o filme “Sol enganador” do Nikita Mikalkov ou “Underground” do Kusturica.

Dizia-me o meu avô: “Vais comprar uma casa!? E sabes que tens que colocar isto debaixo da toalha.” Eu sabia o que tinha de pôr debaixo da toalha, não sabia era o que ele sabia: que a ingenuidade não é boa conselheira e que os gatunos existem e normalmente apresentam-se bem vestidos.”

Esperança. Estão a enganar quem? A pergunta já é outra. Ficamos até quando? Até quando esta barca nos dá guarida, até quando nos vamos sentir empurrados o suficiente para zarpar noutra barca. Seria assim, com este espírito, que outros, portugueses, zarparam também? A pergunta já é: quanto tempo temos que estar fora para equilibrar a nossa vida?

UTOPIA

Isso! Afinal o que é importante? Haverá tempo, para cada um, parar e pensar no assunto.

Estamos tão longe do que a “terra nos dá”, no meio do ordenado e das acções, créditos e compras de valores “contaminados”, que me pergunto, afinal, vivemos uma irrealidade? E é isso que nos traz crise!

E outras vezes viro-me para outra geometria: onde está o humano, a generosidade, a ajuda, a cooperação?

Que se saiba que o planeta não são os telejornais! Que se saiba, que ao partirmos, ao viajar, encontramos mais de generosidade e humano, do que de ganância e competição. Isso é verdade.

E o que vamos fazer com as utopias, as do zeca e do ghandi? Lavamo-las em eufemismo ou pactuamos com o que os países fazem uns aos outros: roubar e competir. Ou isso não é nada assim, e o melhor é mesmo roubar e competir! Ou será que a resposta é este equilibrio precário, que, de vez em vez, nos sacode com uma “crise” violenta.

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