Amor

Disse-me mesmo à beira do balcão, com meia dúzia de garrafas  em frente, que o sexo ou o amor que fazia com a mulher, sabes?, não me lixes, isto não sai daqui, que a minha mulher é tudo para mim, enquanto o faço, enquanto isso, percebes, pensava noutras, que via por aí, a mulher já não o excitava, sempre da mesma forma, mas amava-a e não quero outra mulher, nem sequer estar com mais ninguém que não ela,  percebes?, se não pensar nas outras mulheres não consigo. Daqui só vou quando estiver sóbrio, não entro em casa desta maneira, ela não sabe que bebo, talvez desconfie, também não sabe que penso nas outras, talvez desconfie, mas isto deixa-me de rastos, pesa na consciência e bebo para esquecer, levo-lhe flores, não me esqueço de a convidar para um copo, ofereço-lhe sempre algo especial no aniversário, ou quando me lembro do melhor dia da minha vida, o nosso casamento, e lembro-me dela quase todas as horas do dia. Se ele saísse da minha vida era como se arrancassem um pedaço de mim, espero que eu morra primeiro para não ter que sofrer a morte dela. Fiquei calado e fui ouvindo. E perguntei-lhe o que pensaria ela para fazer amor com ele? Em que pensaria ela? Eh pá agora é que mataste a coisa… Sim, ela também terá as suas estratégias.

para tia

O silêncio foi crescendo à medida que se bebia o café. Ela parecia perdida, à beira de explodir. Eu esperava, barricado. Vai dai ela disse: “estou apavorada. No fim de semana passado fui a um casamento. Não havia amiga que não tivesse um amigo. E a maior parte mais do que amigo. Até na cama faziam amizade já. Entreti-me com esse desalento e fui-me embora. Vê só o tempo que perdi. Comprar a toilette, escolher a malinha, pinturas… achas que vou ficar para tia?” Disparei sem querer. Que mal tem o que quer que seja, nem que seja “ficar para tia”? Tens outras vantagens de quem “ficou para mãe”. Mal será que vivas enferma todos os dias por causa do que quer que seja, seja “ficar para tia” ou “ficar para mãe”. Mal é quando estamos deseducados e encurvados, fedentos e mal encarados, todos os dias, um atrás do outro, um logo a seguir ao outro, meses após mês, à espera que o “princípe do cavalo branco” chegue ou que a fortuna faça blink, ou que a alegria e a felicidade escorram porta abaixo. Mal é esperar que alguma coisa aconteça. A vida passa e tu esperaste. O mal é ficar “ficar para esperar”.

ouvi porque tinha ouvidos de ouvir

Contou-me e eu escrevo a impressão que me deixou. Não são as suas palavras letra a letra, são as texturas e as melodias do seu tempo próprio.

Vivo com a mesma ânsia de ser acossado por perjúrio: que desconhece que o fez por não saber que o que fizera, que construíra afinal um juramento falso: fora falso consigo e com Maria. A mulher dele também se chamava assim. Para um homem de 28 anos, casar-se pode ser um acto falso. Não porque as suas intenções sejam a de causar dor, apenas porque não lhe é possível melhor com esta tenra idade. Um juramento nas estacas do impossível, realizado em ilusão idealista não sabendo que não é possível. E não é.

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cidade

Aliás, comparava toda esta investidura que vivera até agora com a vida de uma cidade; os longos corredores por onde fogem os-outros em fuga acossada, os longos automóveis que se engolem uns aos outros numa louca correria, lembra a fuga do casamento, aos gritos estridentes do som abafado das injúrias furibundas fugidias dos objectos rigorosamente estranhos de um casamento que se ausenta sem nunca desaparecer por completo.

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