relação

Há a relação, casado, de facto, à distância ou assim-assim. E claro há a relação com os amigos. Mais simples não há. Amigos temos poucos. É mesmo assim e ainda bem (para muitos não há tempo). Um ou dois, três talvez, mas duram toda a vida. Muito se passará mas os amigos não mudam.

Conhecidos muitos, uns mais chegados outros menos, alguns até nos surpreendem nos momentos mais aflitos. E isso tudo depende de ti, da tua personalidade, da tua disponibilidade.

E há de tudo. Pessoas que se odeiam mas partilham casas, algumas violentam-se, outras que se amam e não sabem fazê-lo, outras que se amam assim-assim e se seguram ao que podem para sobreviver acompanhados, sozinhos morreriam. Outros ainda, que sem saberem ao certo o que é isso de amar, acabaram por morrer quando ela partiu e há até algumas, que lhe lavam a campa ao mesmo tempo que lhe chamam filho da puta. Eles não são capazes disso, falam para dentro. Têm vergonha. E há aqueles que querem tanto, que vivem tão dentro da relação e só para a relação que acabam por dar-lhe o combustível para que impluda.

Os que surpreendem são aqueles que vivem longe um do outro, veêm-se uma ou duas vezes por ano e assim vivem uma relação à-distancia, a mais moderna, ó possível hoje, estamos a dois dias de qualquer lugar do mundo e a poucas horas do centro da Europa, e as chamadas vídeo não faltam.

De todos estes equilíbrios, retenho apenas que não há relação que sobreviva há violência e que esse equilíbrio é feito a dois, com muitos cruzamentos e curvas bem difíceis. Por vezes é o desespero. O coração bate a cem, ele calado ela em brasa verbal e a coisa acaba aninhados debaixo dos lençóis ou numa espiral invertida. Cada vez mais afastados. Às vezes acorda-se assim, o outro já é só um ponto final.

Porque é assim tão difícil? Talvez porque não há dois iguais, com os mesmo interesses e os mesmos caminhos. Alguns divergem tanto que quando se olham já estão os dois nas duas margens da gare do comboio. Essa é uma não-pergunta, tantos que lhe querem dar resposta e poucos riscaram sequer a tinta. O melhor é “ir à luta” e procurar ouvir sem nos pisarem os calos, em busca desse equilíbrio. Ah, e não é como andar de bicicleta, sabe-se uma vez e pronto, de cada vez que inicia uma relação é um novo equilíbrio com diferenças abismais para as outras.

deixei

deixei a tua mão estendida por cima de um lençol que não é o nosso. Num quarto que não é o nosso. Com uma janela que também não é a nossa. E dessa luz que lhe entrava, vi-as como nunca as vira, sossegadas, tão grandes como as minhas, com tanto tempo como o meu, manchas pintadas, pele desmaiada, à espera que as deixasse partir. Deslizei a minha sobre a tua, uma e outra vez. E não sei qual foi a última. Não quis saber. Fechei-te os olhos e alguém perguntou se te podíamos levar. – “Não podem não…” – pensei eu, mas a minha cabeça acenou apenas o suficiente para concordar. Entrou uma equipa de limpeza de rompante. O nosso tempo terminara. Ao mesmo tempo sai eu, empurrado pelo braço. E o que custa mais não é que o teu corpo parta, é que a minha memória se esqueça de ti. É que os gentis momentos que nos dedicamos se esfumem, que os esqueça. Deixei a tua mão estendida, como noutros dias te deixei aninhada na nossa cama, mas desta vez não regressaria ao quarto, dessa vez não te vou voltar a olhar para te sussurar “Amo-te doce”.

Fui

Fui mas não sai de lá,
não consegui,
lamento.

Fiquei atordoado, ao fim de tantos anos
hipnotizado.
Não a amo,
mas não a consigo deixar,
acho que se suicidaria se o fizesse.
E esse é um peso que não quero suportar
vida fora.

Prefiro ser infeliz a tornar outra gente infeliz. Por isso vou sorrindo para ela,
esperando que não note
que aqui dentro,
dentro de mim
vive alguém que não a ama.