amor muito diferente

as mulheres amam de modo muito diferente do que os homens

ainda bem

Franz E., 20 ago 2017

apaixonados

pescadinha-rabo-na-boca, ficamos na mesma com essas palavras. Entre a paixão e o amor vai a distância de uma vida. O primeiro é cheiro, impulso e droga, o segundo é querer-deixar-se estar. O primeiro é para a gente nova, o segundo é para quem já lamenta o pouco tempo que tem. O primeiro dura pouco, o segundo não queremos que acabe. É a diferença entre o orgasmo e uma longa conversa de esplanada. Se me disseres o que preferes, digo-te a idade.

não sei

Veêm-se de quando em vez. Trocam um beijo e um olá, falam do tempo e ele pede-lhe um café. Os olhos sorriem, o corpo contorce-se e ela ajeita o cabelo, o sorriso fica por ali à espera da deixa dele. Fazem amor sim, nestes exiguos instantes, já me convenci disso, ao fim de tantos anos a vê-los, são os dois casados e gostam-se de olhar. Nota-se. Mas não é triste, não, são os dois de família, e sabem  disso, é mais importante do que se esconderem numa casa para trocar de corpo. Não, não, não é amor.

para tia

O silêncio foi crescendo à medida que se bebia o café. Ela parecia perdida, à beira de explodir. Eu esperava, barricado. Vai dai ela disse: “estou apavorada. No fim de semana passado fui a um casamento. Não havia amiga que não tivesse um amigo. E a maior parte mais do que amigo. Até na cama faziam amizade já. Entreti-me com esse desalento e fui-me embora. Vê só o tempo que perdi. Comprar a toilette, escolher a malinha, pinturas… achas que vou ficar para tia?” Disparei sem querer. Que mal tem o que quer que seja, nem que seja “ficar para tia”? Tens outras vantagens de quem “ficou para mãe”. Mal será que vivas enferma todos os dias por causa do que quer que seja, seja “ficar para tia” ou “ficar para mãe”. Mal é quando estamos deseducados e encurvados, fedentos e mal encarados, todos os dias, um atrás do outro, um logo a seguir ao outro, meses após mês, à espera que o “princípe do cavalo branco” chegue ou que a fortuna faça blink, ou que a alegria e a felicidade escorram porta abaixo. Mal é esperar que alguma coisa aconteça. A vida passa e tu esperaste. O mal é ficar “ficar para esperar”.

estou aqui!

-”estou aqui, aqui, aqui”- um corpo que chamava por outro, um que pedia o outro, um riso que se prendia ao coração, eu que me prendia no olhar dela, na face esquiva, uma intenção saborosa, pendurado numa dúvida esguia até ao desejo seguinte, o corpo escondido, o prolongamento do que se deixa ver, e quando se encontram numa primeira dança, os lábios chocam-se, sugam-se, agora único corpo ligado, enrolam-se para que nada termine;

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coração

Saberás o que fazer com ele. Saberás cuidá-lo melhor do que eu cuido. É mais que uma união, que este carinho, que este respeito, amizade, que este valor que lhe atribuo: ser a minha companheira e eu pareço que lhe agrado; quer dizer, claro que agrado, ela não pára de me atazanar, eu cordeirinho inocente, caio-lhe nos braços, ela à espera de braços abertos que se fecham quando, como guerreiro moribundo de joelhos no chão, à espera que me desfira o golpe final.

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Maria

Os ombros quase descobertos deixavam que um pequeno pedaço da alça do seu soutien os contornassem, ficava eu a ver. Seria só para mim? O pescoço afagado pelo cabelo curto cheirava ao sorriso dela, Maria recortava-se delicada, só havia ela, onde quer que estivéssemos, suave, energética, determinada, orgulhosa, altiva, para mim ela dançava por detrás do balcão, e só o seu olhar de soslaio fazia com que parasse. Os volumes do seu corpo que a roupa deixava ver matavam-me, misteriosas. Como seria o seu corpo? Como seriam os seios? As costas? E isso era assim todo o dia. Mesmo quando esperávamos numa fila. Talvez não se importasse. Estaria a exagerar? No dia em que ela entrou no café foi como uma salto, um empurrão, um pontapé, “És tu” – diz o corpo todo – “encontrei-te”, desde o brilho nos olhos até ao sorriso, o meu estômago eram só pilhas, repetido o olhar sobre ela, recuando, voltando a olhar, em voltas e reviravoltas constantes, incontáveis.

O Fraco, 7ªParte

Maria

Um dia pensei que o sorriso de Maria significava mais, tinha mais para mim do que supunha. Num salto cheguei a outro lugar mais inesperado. Um espasmo, súbito, sem origem, sem significado, fugidio e receoso, esse lugar que tu sabes quando não percebemos nada do que se passa. Mas feliz. É. Muito feliz. Aliás, uma alegria que não se pode esconder, o corpo é todo alegria, ela é toda perfeição, desde os olhos até ficar preso no sorriso. Ficas estúpido. Cãozinho sentado com as patas no ar e língua de fora. Estás detido para interrogatório. E pior, foi sem saber, e muito devagar, ao longo de anos e anos, quando acordas tens um lugar com “nós” por dentro. Não é teu nem dela. É “nós”. Não sabia bem o que era, mas era. Entre adocicado, prazenteiro, malandro e zombeteiro, até apetecido e saudoso: um lugar onde queremos voltar. E habitado, por ti e por ela. Só os dois. Como era bom, apareciam outros para ver a felicidade e gozar um bocadinho com a ingenuidade do casal que ainda não sabia ao certo que era. Mas já era. E quando não sabes onde estás vais atrás e queres lembrar quando a conheceste: vestia uma saia longa que quase lhe cobria os pés. – “O meu nome é Maria.” – A voz era mesmo doce. Nem o coração sabe o seu lugar. Anda ali para um lado e para o outro. Pode até ficar abaixo do fígado. Quem sabe. Adiante. As sandálias escondiam-se deixando-lhe recortar-se a pele de cor pérola com as tiras brancas. A camisola de renda ajustada ao corpo e aos seios fazia imaginar as curvas. Eu quereria tocar-lhe assim. Ao de leve e sem pressa. Os braços finos desapareciam quando lhe via as mãos falar. E ela falava bem. Com as mãos e com o corpo. Era bela.

O Fraco, 7ª Parte

um fio frio

seguras uma navalha fria, espetas e olhas para mim como se fosse eu o culpado. não fiz nada. que estás enganado. olha para a tua mão. essa é uma navalha e o sangue que escorre é meu. admites. lamentarás depois. admitirás que mal fizeste. mas só depois. muito depois. faremos pazes. remoçamos. meses mais tarde, repetes. sobreviveremos com esse fio frio todos os dias?

amor

parece-me que misturas amor e paixão. Paixão é o que se fala neste post. Amor é o que fica depois da paixão, e pode não ficar nada, e pode ficar tudo, mesmo que quem partilha esse amor não esteja junto. E isso é diferente, deixem acabar, para os que participam nesse amor, nessa ligação. Amor é parecido com compaixão, tem felicidade, sente-se a falta, pode falar-se sem nunca o definir, não é coisa, é estar sem pedir, é escutar mais do que falar sempre, é estar para o outro, ou outros, sem si. A paixão tem prazo, até dizem os ceintistas, dois anos.