há um vazio

há um vazio estranho, uma incerteza severa, como um rio que segue e só se sente de quando em vez. Uma ausência de sucesso que não nos dá um sorriso de encher o corpo. Murchamos como figos ao sol. E para quê? Se amanhã será outro dia, se daqui a pouco estarás acompanhado. A verdade é que vais de perda em perda, amigos que se vão, familia que se vai e o tempo que não volta, os lugares impossíveis, os acontecimentos que não acontecerão jamais, mesmo que ainda haja uma estupida memória que te os aviva e te dá a esperança morta de ainda virem a acontecer. O eterno retorno. Bah… procura outros, faz coisas novas, percorre caminhos diferentes. Mas desse vazio pequenino e mesquinho não te safas. De quando em vez pim, toca-te à porta.

amigo

quem o diz “amigo”, depois da mensagem no fim de tudo ou no princípio

olá amigo. adeus amigo. sou amigo

pois. os amigos ficam no fim. e são poucos.

ficam com o desespero a desesperança o desalento ou a desilusão

a outra parte dos amigos

é a solidão da idade

vem o tempo extenso e ficas só

não falas aquelas falas de coração na mão

tão transparente que até te surpreende

mesmo a ti próprio

os amigos também medem a idade, são poucos e continuam sendo cada vez menos.

estou aqui!

-”estou aqui, aqui, aqui”- um corpo que chamava por outro, um que pedia o outro, um riso que se prendia ao coração, eu que me prendia no olhar dela, na face esquiva, uma intenção saborosa, pendurado numa dúvida esguia até ao desejo seguinte, o corpo escondido, o prolongamento do que se deixa ver, e quando se encontram numa primeira dança, os lábios chocam-se, sugam-se, agora único corpo ligado, enrolam-se para que nada termine;

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Maria

Os ombros quase descobertos deixavam que um pequeno pedaço da alça do seu soutien os contornassem, ficava eu a ver. Seria só para mim? O pescoço afagado pelo cabelo curto cheirava ao sorriso dela, Maria recortava-se delicada, só havia ela, onde quer que estivéssemos, suave, energética, determinada, orgulhosa, altiva, para mim ela dançava por detrás do balcão, e só o seu olhar de soslaio fazia com que parasse. Os volumes do seu corpo que a roupa deixava ver matavam-me, misteriosas. Como seria o seu corpo? Como seriam os seios? As costas? E isso era assim todo o dia. Mesmo quando esperávamos numa fila. Talvez não se importasse. Estaria a exagerar? No dia em que ela entrou no café foi como uma salto, um empurrão, um pontapé, “És tu” – diz o corpo todo – “encontrei-te”, desde o brilho nos olhos até ao sorriso, o meu estômago eram só pilhas, repetido o olhar sobre ela, recuando, voltando a olhar, em voltas e reviravoltas constantes, incontáveis.

O Fraco, 7ªParte

Maria

Um dia pensei que o sorriso de Maria significava mais, tinha mais para mim do que supunha. Num salto cheguei a outro lugar mais inesperado. Um espasmo, súbito, sem origem, sem significado, fugidio e receoso, esse lugar que tu sabes quando não percebemos nada do que se passa. Mas feliz. É. Muito feliz. Aliás, uma alegria que não se pode esconder, o corpo é todo alegria, ela é toda perfeição, desde os olhos até ficar preso no sorriso. Ficas estúpido. Cãozinho sentado com as patas no ar e língua de fora. Estás detido para interrogatório. E pior, foi sem saber, e muito devagar, ao longo de anos e anos, quando acordas tens um lugar com “nós” por dentro. Não é teu nem dela. É “nós”. Não sabia bem o que era, mas era. Entre adocicado, prazenteiro, malandro e zombeteiro, até apetecido e saudoso: um lugar onde queremos voltar. E habitado, por ti e por ela. Só os dois. Como era bom, apareciam outros para ver a felicidade e gozar um bocadinho com a ingenuidade do casal que ainda não sabia ao certo que era. Mas já era. E quando não sabes onde estás vais atrás e queres lembrar quando a conheceste: vestia uma saia longa que quase lhe cobria os pés. – “O meu nome é Maria.” – A voz era mesmo doce. Nem o coração sabe o seu lugar. Anda ali para um lado e para o outro. Pode até ficar abaixo do fígado. Quem sabe. Adiante. As sandálias escondiam-se deixando-lhe recortar-se a pele de cor pérola com as tiras brancas. A camisola de renda ajustada ao corpo e aos seios fazia imaginar as curvas. Eu quereria tocar-lhe assim. Ao de leve e sem pressa. Os braços finos desapareciam quando lhe via as mãos falar. E ela falava bem. Com as mãos e com o corpo. Era bela.

O Fraco, 7ª Parte

abraço

“hey, parra” – a voz sossegada e a expressão familiar, emergem no ruído da cidade como placas de madeira afundadas, pelo meio das pessoas, e tudo se silencia de repente, como se em pleno dia tudo se apaga-se, tudo escurecesse e ficasse o espanto. Inacreditável. Poderá ser. Vinte anos depois. Uma memória que nos fugiu das mãos começa a salpicar de imagens. Vira-se sem querer, ligeiramente arqueado, com um sorriso quase desenhado, uma ânsia breve de confirmar. Procura a direcção da voz inquieto, e sem acreditar. “Sou eu rapaz. Sou eu. Há quanto tempo? Está tudo bem?” O nervosismo toma conta de um abraço jamais pensado.
“eh eheh, há quanto tempo?” – responde ao mesmo tempo que o abraço fraterno se mantém aceso. Ficaram abraçados enquanto as lágrimas cresciam seguras ao sofrimento que tinham passado e por todos os que tombaram ao mesmo tempo. Trocaram palavras. Olhares. Sorrisos. Gargalhadas que já não sentia serem possíveis neste lugar-tempo. Continuava sisudo e ele alegre como se todo este tempo tivesse sido inútil. Trocaram contactos e largaram-se do passado inquieto. Já ninguém me chama assim. É este o último. Foi andando a magicar nas memórias que este camarada lhe recordava e ficou entre a alegria e a miséria: uma amizade não se perde com o tempo, mesmo se esse tempo for miserável, e se as recordações forem de desgraça.