uma luz, nesse candeeiro

bem sei que havia uma luz, e que por isso há, noutro lugar, mas que eu queria era que ainda essa luz estivesse onde estava. avessos que somos há mudança, que fosse o mesmissimo candeeiro de outrora, por cima da mesma porta. Havia essa luz, num pequeno candeiro, cintilante, quase a apagar-se, reticente, fizesse o tempo que fizesse, no meio dessa tempestade da mais violenta que imagines, mas que estava lá, à tua chegada, no meio da chuva intensa, do vento bruto e quase sem visibilidade, essa pequena luz termitente, estava, dentro desse candeiro por cima de uma porta que se abriria, qual magia, fosse qual fosse a hora a que chegasses, fosse qual fosse o estado em que chegasses, fizesse o tempo que fizesse. Essa porta abraçava-te desde que fosses tu.

sentido

A vida não tem sentido. ponto final.

E só o tem se escolhermos um. ponto final.

E logo a seguir vem a pergunta: que sentido? ponto final.

Vou escrever. É esse o sentido, E porquê esse e não outro?

É porque esse livro, humano, aqueles que ficam, não os que mostram ódio, nem na arte, muito menos na literatura. Os museus, as bibliotecas, são arte e cultura humanas, é o que fica.

Neste planeta tão desumano, intolerante, egoista e ganancioso, fica um livro humano, numtempo em que foi escrito humano, um livro que fale de dentro para lembrar ao outro, noutro tempo, que existe e é possível ser-se um certo ser humano: tolerante, generoso e cooperante.

homo

conta-se, estava lá, e confirmo, não são notícias falsas, que um dito “filme japonês”, convenceu uma plateia inteira, com pessoas, não vão dizer que convenceu apenas a plateia e os respetivos lugares, confirmo isso, dizia, convenceu uma plateia inteira plena de pessoas, que entre homem e homem pode haver amor tal como em qualquer outra relação, homem mulher, quer dizer, com conflito, paradoxos, desencontros, mal entendidos, silencios, amuos, alegrias, tristezas, desencontros, reencontros, mal-amor, amor-ódio, e todas as outras possibilidades que numa relação a dois carrega. Para que se saiba, até ali isso de homem homem era coisa do diabo, da moda, do capricho e até doença. E não é não senhor. Vai dai nasce-se assim, e aceita-se ou esconde-se, mesmo de si próprio, mostre-se ou não ao mundo. E sim, nas mulheres ainda não houve filme que convencesse a plateia.

medo

o medo dos outros, acrescenta miséria, desordem, desalegrias, desavenças, intolerâncias, mais medo, maior medo e desorientações imersas, horrores escondidos, bombas latentes, diferenças que se tornam fronteiras, barreiras e muros maiores, até tudo se tornar em guerra quando podia ter sido uma conversa tardia ao sabor de uma refeição que só tu sabes fazer.

mudança

nem sequer disse, não disse mesmo “não mudes”, não o pediu, estava bem assim, mas viu mudar, uma atrás de outra, confortável, atónito, estático, amarrado, sem nada fazer, sem nada poder fazer, viu todas, uma de cada vez, inocentes cada uma, fulgurantes todas, peças de dominó derrubadas em catadupa, esses confortos garantidos, derrubados um a um, diz agora, não mudasses que não suporta este desconforto… e não disse mais nada, estava feito, já só o som de memória dessa porta espantada, essa pancada estridente, fechada para sempre, revesse sem querer, continua a ir e vir, e volta sempre, não mudasses pá, não mudasses, esse que não se quer rever, esse filme morto, o lugar morreu… vai este mundo vazio, e mais vazio ainda se lês as notícias de todos os dias, ano atrás de ano. Vai este mundo vazio de pensamento a uma velocidade vertiginosa, tudo sempre a mais e à frente e em mudança, sempre a mudar e depressa. Nada dura uma geração, muito menos duas ou três. Mudança. Talvez te sirva de lição, que o mundo muda, eu não queria que mudasse tão depressa, a esta velocidade gigantesca, absurda e acelerada.

mulher

Nem me atrevo a escrever estas palavras. Mas lá vão. São elas que mandam. São elas que mais trabalham. São elas a cola disto tudo. É delas o bom senso. São as que mais sofrem. Se perdem o filho, a filha. Se são violentadas, violadas, massacradas, vendidas, apedrejadas. Se ficam no meio da guerra. Desesperadas, ameaçam com a abstinência. Vai dai, o que de facto preocupa é a estreita visão com que nós todos a vestimos, esse nós inclui-te mulher, como se não servisse para nada mais, se não para o sexo e para o trabalho, para ser puta ou santa, se não pode pensar, dizer, ou recordar, explorar ou arriscar, de que lhe serve viver. Que nos livre a todos o futuro de as perdermos, esse farol, essa mulher que nos segura pelo braço sempre que te esvazias. Se a perdesses, pá, ai se a perdesses. Se a perdesses sei, bem sei qo ue te aconteceria, ficarias como uma múmia bassa que arrasca o carrinho de compras com os olhos na direção do chão vazio e sem cor, sem textura nem vergonha, e se passa por ti, não te ouve nem te diz nada. Bem sei que também não são flores que se cheirem. Em muitas ocasiões provamos disso, desse fel de que são capazes. Nem sequer discutas com uma. Foge pá, foge. Pois, se fugiste, perdes-te-a. Afinal fica. Dá-lhe um abraço pode ser que te safes.

a propósito

bem me lembro de alguém dizer, lembrar-se de ter visto, a primeira vez que o filme “pato com laranja” passou na televisão portuguesa. Ou mesmo o filme em que se mostra o primeiro beijo. A particularidade é que o fez, falo do que tem pato, estando em casa de um padre. O que se falou disso por todo o país. E isto faz-me lembrar aquilo. Interessa pois dar uma opinião. Sim, que se mostre. Sim, se alguém fez arte. E sim, é preciso proteger as crianças, sabe-se lá o que pensariam ou o que fariam sem qualquer explicação sobre o assunto, duvido que haja quem o soubesse fazer, muito antes de poderem pensar que isto não é paraíso algum, e que a mente é bem mais perversa, mesmo sabendo que algumas já sabem que neste mundo há quem se esqueça dos outros, se esqueça de si e aprecie o sofrimento, seu e dos outros e alguns que felizes vivem com o sofrimento dos outros, e que outros lutem pela sobrevivência para causar sofrimento nos outros. Falo obviamente a propósito da exposição na Fundação de Serralves. Um lugar com L maior, maiúsculo. Ainda bem há disto, polémica e discussão do que somos afinal por aqui.