mulher

Nem me atrevo a escrever estas palavras. Mas lá vão. São elas que mandam. São elas que mais trabalham. São elas a cola disto tudo. É delas o bom senso. São as que mais sofrem. Se perdem o filho, a filha. Se são violentadas, violadas, massacradas, vendidas, apedrejadas. Se ficam no meio da guerra. Desesperadas, ameaçam com a abstinência. Vai dai, o que de facto preocupa é a estreita visão com que nós todos a vestimos, esse nós inclui-te mulher, como se não servisse para nada mais, se não para o sexo e para o trabalho, para ser puta ou santa, se não pode pensar, dizer, ou recordar, explorar ou arriscar, de que lhe serve viver. Que nos livre a todos o futuro de as perdermos, esse farol, essa mulher que nos segura pelo braço sempre que te esvazias. Se a perdesses, pá, ai se a perdesses. Se a perdesses sei, bem sei qo ue te aconteceria, ficarias como uma múmia bassa que arrasca o carrinho de compras com os olhos na direção do chão vazio e sem cor, sem textura nem vergonha, e se passa por ti, não te ouve nem te diz nada. Bem sei que também não são flores que se cheirem. Em muitas ocasiões provamos disso, desse fel de que são capazes. Nem sequer discutas com uma. Foge pá, foge. Pois, se fugiste, perdes-te-a. Afinal fica. Dá-lhe um abraço pode ser que te safes.

a propósito

bem me lembro de alguém dizer, lembrar-se de ter visto, a primeira vez que o filme “pato com laranja” passou na televisão portuguesa. Ou mesmo o filme em que se mostra o primeiro beijo. A particularidade é que o fez, falo do que tem pato, estando em casa de um padre. O que se falou disso por todo o país. E isto faz-me lembrar aquilo. Interessa pois dar uma opinião. Sim, que se mostre. Sim, se alguém fez arte. E sim, é preciso proteger as crianças, sabe-se lá o que pensariam ou o que fariam sem qualquer explicação sobre o assunto, duvido que haja quem o soubesse fazer, muito antes de poderem pensar que isto não é paraíso algum, e que a mente é bem mais perversa, mesmo sabendo que algumas já sabem que neste mundo há quem se esqueça dos outros, se esqueça de si e aprecie o sofrimento, seu e dos outros e alguns que felizes vivem com o sofrimento dos outros, e que outros lutem pela sobrevivência para causar sofrimento nos outros. Falo obviamente a propósito da exposição na Fundação de Serralves. Um lugar com L maior, maiúsculo. Ainda bem há disto, polémica e discussão do que somos afinal por aqui.

dar

antes disso, do dar, terá essa pessoa, quem deu, pensado nessa outra a quem deu, e isso será o melhor que alguém poderá fazer neste planeta não tão sombrio assim

ruí

Ruí as unhas. No passado, todos os dias. Hoje de duas  a quatro vezes ao ano. Há medida que cresci vai-se sendo mais comedido. Era mesmo para guardar segredo. Nunca falei disto a ninguém. Nem aos íntimos que já não estão nem à família que vai encurtando. E não sei porquê. No principio ficava com os dedos desalinhados e agora também, antes era a tempo inteiro, agora não percebo porque é que o faço, ficam estes dedos com as unhas em socalcos, desentendidas, porque é que o fizeste? Começasse e pronto.

há um vazio

há um vazio estranho, uma incerteza severa, como um rio que segue e só se sente de quando em vez. Uma ausência de sucesso que não nos dá um sorriso de encher o corpo. Murchamos como figos ao sol. E para quê? Se amanhã será outro dia, se daqui a pouco estarás acompanhado. A verdade é que vais de perda em perda, amigos que se vão, familia que se vai e o tempo que não volta, os lugares impossíveis, os acontecimentos que não acontecerão jamais, mesmo que ainda haja uma estupida memória que te os aviva e te dá a esperança morta de ainda virem a acontecer. O eterno retorno. Bah… procura outros, faz coisas novas, percorre caminhos diferentes. Mas desse vazio pequenino e mesquinho não te safas. De quando em vez pim, toca-te à porta.

Amor

Disse-me mesmo à beira do balcão, com meia dúzia de garrafas  em frente, que o sexo ou o amor que fazia com a mulher, sabes?, não me lixes, isto não sai daqui, que a minha mulher é tudo para mim, enquanto o faço, enquanto isso, percebes, pensava noutras, que via por aí, a mulher já não o excitava, sempre da mesma forma, mas amava-a e não quero outra mulher, nem sequer estar com mais ninguém que não ela,  percebes?, se não pensar nas outras mulheres não consigo. Daqui só vou quando estiver sóbrio, não entro em casa desta maneira, ela não sabe que bebo, talvez desconfie, também não sabe que penso nas outras, talvez desconfie, mas isto deixa-me de rastos, pesa na consciência e bebo para esquecer, levo-lhe flores, não me esqueço de a convidar para um copo, ofereço-lhe sempre algo especial no aniversário, ou quando me lembro do melhor dia da minha vida, o nosso casamento, e lembro-me dela quase todas as horas do dia. Se ele saísse da minha vida era como se arrancassem um pedaço de mim, espero que eu morra primeiro para não ter que sofrer a morte dela. Fiquei calado e fui ouvindo. E perguntei-lhe o que pensaria ela para fazer amor com ele? Em que pensaria ela? Eh pá agora é que mataste a coisa… Sim, ela também terá as suas estratégias.

Escrever porquê?

As palavras fogem e queimam, e tarde se descobre a vontade de escrever mais uma palavra, mesmo que encaixe retorcida esbaforida quase próximo da loucura, no minuto antes de terminar o parágrafo. A cada uma vais tu perguntando que merda faço eu se escrevo tão mal e tudo sai tão a ferros e há quem o faça tão deliciosamente… 

Que interessa isso, se a escrita, o ler, o ouvir a leitura, te salva da loucura todos os dias, que interessa isso!? Bem sei que interessa se a tua intenção é ser um escritor, pertencer a uma das mais altas castas que se erguem ao mais alto nível do nível mais elevado do ser mais alto que existe acima das mais altas alturas da sociedade… Bah! Não interessa nada rapaz. Nada. 

As escalas, métricas e réguas são de outro lugar, da Ciência, por exemplo, e lá ficam muito bem. Tu que escorregas vida adentro todos os dias, do mesmo modo que todos esses altíssimos escritores, vão todos vida adentro com as mesmas relíquias. A diferença está na fama. A tua é zero e continuará. Mas não estás louco, como os famosos também não estarão. Só não escreverás deliciosamente nem terás fama. Só isso. Bom, há mais do que deliciosamente, há uma escrita que te deixa depois, e não és o mesmo, não. A minha nunca fará isso, mas a desses que escrevem, que dão a sua vida por essas páginas de magia e ao mesmo tempo eternas, obrigado. Sem isso era a loucura.