estreito

todos os dias, a vida curta,

estreita, sempre um pouco mais

bem caminhas em revoltas cadas vez mais curtas

o abismo por diante, por de lado, por de cima

e mais uma volta, não vás cair

essa caixa de vida estreita que desconhecias tão estreita

que vais a seguir empurrado como um animal

estreito e estreito, de volta breu

do outro lado breu

por todos os lados uma ausência negra

empurrado, não vais sorrir, nem ser feliz

 

quererias pegar no telefone e falar, não está ninguém

nem nesse número nem no outro, nem hoje nem amanhã

esse número está só na tua agenda e não o vais apagar

querias ouvir uma voz simples, doce, sincera

nem nesse número nem na morada dela

quando terá sido a última vez que lhe disseste alguma coisa,

que a viste, ou que foste a casa dela

não não, se pensas em falar com quem dizer o que te vai por dentro

ninguém, só sorrisos que te vão gozar amanhã, num comentário qualquer

e mais estreito

vives, mais vale só com o mar do que com este breu imenso

mais vale esse animal de companhia que a companhia com quem não posso dizer nada de dentro

dela só as coisas que deixou e o que disse sem querer dizer nada

todos os que te ouviam dizer-te, morreram

o que farás agora?

Franz E., abril 2018

há um abismo

há um abismo que não era abismo, mas que vai sendo há medida do teu envelhecimento. Correrás para ele, refarás curvas e recurvas noutras direções, seguiras linha reta tão lento quanto possível? E chegados lá, que fazes?

dois caminhos

Há dois caminhos. É decidir por um. Ou lês o resumo do livro ou o livro em si. Por estes dias, o resumo do livro já são duas frases, às vezes uma e não fica em lado nenhum, em nenhum suporte físico, nem sequer dentro de um arquivo morto. E se esse resumo é uma foto virtual pior, ficou por ai, tiram-se às centenas e morrem logo ali.

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amor

Não tens tempo de ouvir a pergunta quanto mais dizer a resposta e já lá estás, uma pulsão abrupta, e só deixas de tremer mais quando estás perto, mas isso chama-se paixão. Dura pouco, não mais que dois anos. Dizem.

Lá para depois da quarta paixão ainda não controlas o que dás. Mas não vais ter ninguém a dizer-te o que fazer, nem sequer uma arma apontada à cabeça, nem é preciso, porque já deste tudo o que tinhas. Se mesmo assim a paixão não dura e o amor não fica, o corpo quebra-se no chão.

Se ficas depois da primeira guerra, depois da segunda aflição, depois do terceiro problema sério, depois da morte, já lhe podes chamar isso maior, amor.

Lá para depois do primeiro amor vais controlar o que dás.

 

Ajuda

Ajuda

Tarde ou cedo, precisas de uma ajuda

amor muito diferente

as mulheres amam de modo muito diferente do que os homens

ainda bem

Franz E., 20 ago 2017

Não levo saudades

“Não levo saudades desta vida” – disse ele e escrevo eu.

“Não diga isso. Tem neta, filhos saudáveis, mulher dedicada, que mais quer?”

Aproximou-se tão perto, baixou a voz – “Estou aqui na vertical, nem sei como, não há canto do corpo que não me doa, nem mesmo a alma. Tenho setenta anos e trabalho 15 horas por dia. Atrás de um balcão, aturo má educação, nem vejo Sol. Estou cansado. Muito.” – encostou-se ao balcão atrás dele.

“O mais espantoso, no meio desta atrapalhada toda, funciona. Isto funciona, mesmo no meio do caos.” – Disse-lhe o outro e escrevo eu.