medo

o medo dos outros, acrescenta miséria, desordem, desalegrias, desavenças, intolerâncias, mais medo, maior medo e desorientações imersas, horrores escondidos, bombas latentes, diferenças que se tornam fronteiras, barreiras e muros maiores, até tudo se tornar em guerra quando podia ter sido uma conversa tardia ao sabor de uma refeição que só tu sabes fazer.

mudança

nem sequer disse, não disse mesmo “não mudes”, não o pediu, estava bem assim, mas viu mudar, uma atrás de outra, confortável, atónito, estático, amarrado, sem nada fazer, sem nada poder fazer, viu todas, uma de cada vez, inocentes cada uma, fulgurantes todas, peças de dominó derrubadas em catadupa, esses confortos garantidos, derrubados um a um, diz agora, não mudasses que não suporta este desconforto… e não disse mais nada, estava feito, já só o som de memória dessa porta espantada, essa pancada estridente, fechada para sempre, revesse sem querer, continua a ir e vir, e volta sempre, não mudasses pá, não mudasses, esse que não se quer rever, esse filme morto, o lugar morreu… vai este mundo vazio, e mais vazio ainda se lês as notícias de todos os dias, ano atrás de ano. Vai este mundo vazio de pensamento a uma velocidade vertiginosa, tudo sempre a mais e à frente e em mudança, sempre a mudar e depressa. Nada dura uma geração, muito menos duas ou três. Mudança. Talvez te sirva de lição, que o mundo muda, eu não queria que mudasse tão depressa, a esta velocidade gigantesca, absurda e acelerada.

mulher

Nem me atrevo a escrever estas palavras. Mas lá vão. São elas que mandam. São elas que mais trabalham. São elas a cola disto tudo. É delas o bom senso. São as que mais sofrem. Se perdem o filho, a filha. Se são violentadas, violadas, massacradas, vendidas, apedrejadas. Se ficam no meio da guerra. Desesperadas, ameaçam com a abstinência. Vai dai, o que de facto preocupa é a estreita visão com que nós todos a vestimos, esse nós inclui-te mulher, como se não servisse para nada mais, se não para o sexo e para o trabalho, para ser puta ou santa, se não pode pensar, dizer, ou recordar, explorar ou arriscar, de que lhe serve viver. Que nos livre a todos o futuro de as perdermos, esse farol, essa mulher que nos segura pelo braço sempre que te esvazias. Se a perdesses, pá, ai se a perdesses. Se a perdesses sei, bem sei qo ue te aconteceria, ficarias como uma múmia bassa que arrasca o carrinho de compras com os olhos na direção do chão vazio e sem cor, sem textura nem vergonha, e se passa por ti, não te ouve nem te diz nada. Bem sei que também não são flores que se cheirem. Em muitas ocasiões provamos disso, desse fel de que são capazes. Nem sequer discutas com uma. Foge pá, foge. Pois, se fugiste, perdes-te-a. Afinal fica. Dá-lhe um abraço pode ser que te safes.

a propósito

bem me lembro de alguém dizer, lembrar-se de ter visto, a primeira vez que o filme “pato com laranja” passou na televisão portuguesa. Ou mesmo o filme em que se mostra o primeiro beijo. A particularidade é que o fez, falo do que tem pato, estando em casa de um padre. O que se falou disso por todo o país. E isto faz-me lembrar aquilo. Interessa pois dar uma opinião. Sim, que se mostre. Sim, se alguém fez arte. E sim, é preciso proteger as crianças, sabe-se lá o que pensariam ou o que fariam sem qualquer explicação sobre o assunto, duvido que haja quem o soubesse fazer, muito antes de poderem pensar que isto não é paraíso algum, e que a mente é bem mais perversa, mesmo sabendo que algumas já sabem que neste mundo há quem se esqueça dos outros, se esqueça de si e aprecie o sofrimento, seu e dos outros e alguns que felizes vivem com o sofrimento dos outros, e que outros lutem pela sobrevivência para causar sofrimento nos outros. Falo obviamente a propósito da exposição na Fundação de Serralves. Um lugar com L maior, maiúsculo. Ainda bem há disto, polémica e discussão do que somos afinal por aqui.

dar

antes disso, do dar, terá essa pessoa, quem deu, pensado nessa outra a quem deu, e isso será o melhor que alguém poderá fazer neste planeta não tão sombrio assim

ruí

Ruí as unhas. No passado, todos os dias. Hoje de duas  a quatro vezes ao ano. Há medida que cresci vai-se sendo mais comedido. Era mesmo para guardar segredo. Nunca falei disto a ninguém. Nem aos íntimos que já não estão nem à família que vai encurtando. E não sei porquê. No principio ficava com os dedos desalinhados e agora também, antes era a tempo inteiro, agora não percebo porque é que o faço, ficam estes dedos com as unhas em socalcos, desentendidas, porque é que o fizeste? Começasse e pronto.

há um vazio

há um vazio estranho, uma incerteza severa, como um rio que segue e só se sente de quando em vez. Uma ausência de sucesso que não nos dá um sorriso de encher o corpo. Murchamos como figos ao sol. E para quê? Se amanhã será outro dia, se daqui a pouco estarás acompanhado. A verdade é que vais de perda em perda, amigos que se vão, familia que se vai e o tempo que não volta, os lugares impossíveis, os acontecimentos que não acontecerão jamais, mesmo que ainda haja uma estupida memória que te os aviva e te dá a esperança morta de ainda virem a acontecer. O eterno retorno. Bah… procura outros, faz coisas novas, percorre caminhos diferentes. Mas desse vazio pequenino e mesquinho não te safas. De quando em vez pim, toca-te à porta.