Amor

Disse-me mesmo à beira do balcão, com meia dúzia de garrafas  em frente, que o sexo ou o amor que fazia com a mulher, sabes?, não me lixes, isto não sai daqui, que a minha mulher é tudo para mim, enquanto o faço, enquanto isso, percebes, pensava noutras, que via por aí, a mulher já não o excitava, sempre da mesma forma, mas amava-a e não quero outra mulher, nem sequer estar com mais ninguém que não ela,  percebes?, se não pensar nas outras mulheres não consigo. Daqui só vou quando estiver sóbrio, não entro em casa desta maneira, ela não sabe que bebo, talvez desconfie, também não sabe que penso nas outras, talvez desconfie, mas isto deixa-me de rastos, pesa na consciência e bebo para esquecer, levo-lhe flores, não me esqueço de a convidar para um copo, ofereço-lhe sempre algo especial no aniversário, ou quando me lembro do melhor dia da minha vida, o nosso casamento, e lembro-me dela quase todas as horas do dia. Se ele saísse da minha vida era como se arrancassem um pedaço de mim, espero que eu morra primeiro para não ter que sofrer a morte dela. Fiquei calado e fui ouvindo. E perguntei-lhe o que pensaria ela para fazer amor com ele? Em que pensaria ela? Eh pá agora é que mataste a coisa… Sim, ela também terá as suas estratégias.

Escrever porquê?

As palavras fogem e queimam, e tarde se descobre a vontade de escrever mais uma palavra, mesmo que encaixe retorcida esbaforida quase próximo da loucura, no minuto antes de terminar o parágrafo. A cada uma vais tu perguntando que merda faço eu se escrevo tão mal e tudo sai tão a ferros e há quem o faça tão deliciosamente… 

Que interessa isso, se a escrita, o ler, o ouvir a leitura, te salva da loucura todos os dias, que interessa isso!? Bem sei que interessa se a tua intenção é ser um escritor, pertencer a uma das mais altas castas que se erguem ao mais alto nível do nível mais elevado do ser mais alto que existe acima das mais altas alturas da sociedade… Bah! Não interessa nada rapaz. Nada. 

As escalas, métricas e réguas são de outro lugar, da Ciência, por exemplo, e lá ficam muito bem. Tu que escorregas vida adentro todos os dias, do mesmo modo que todos esses altíssimos escritores, vão todos vida adentro com as mesmas relíquias. A diferença está na fama. A tua é zero e continuará. Mas não estás louco, como os famosos também não estarão. Só não escreverás deliciosamente nem terás fama. Só isso. Bom, há mais do que deliciosamente, há uma escrita que te deixa depois, e não és o mesmo, não. A minha nunca fará isso, mas a desses que escrevem, que dão a sua vida por essas páginas de magia e ao mesmo tempo eternas, obrigado. Sem isso era a loucura.

estreito

todos os dias, a vida curta,

estreita, sempre um pouco mais

bem caminhas em revoltas cadas vez mais curtas

o abismo por diante, por de lado, por de cima

e mais uma volta, não vás cair

essa caixa de vida estreita que desconhecias tão estreita

que vais a seguir empurrado como um animal

estreito e estreito, de volta breu

do outro lado breu

por todos os lados uma ausência negra

empurrado, não vais sorrir, nem ser feliz

 

quererias pegar no telefone e falar, não está ninguém

nem nesse número nem no outro, nem hoje nem amanhã

esse número está só na tua agenda e não o vais apagar

querias ouvir uma voz simples, doce, sincera

nem nesse número nem na morada dela

quando terá sido a última vez que lhe disseste alguma coisa,

que a viste, ou que foste a casa dela

não não, se pensas em falar com quem dizer o que te vai por dentro

ninguém, só sorrisos que te vão gozar amanhã, num comentário qualquer

e mais estreito

vives, mais vale só com o mar do que com este breu imenso

mais vale esse animal de companhia que a companhia com quem não posso dizer nada de dentro

dela só as coisas que deixou e o que disse sem querer dizer nada

todos os que te ouviam dizer-te, morreram

o que farás agora?

Franz E., abril 2018

há um abismo

há um abismo que não era abismo, mas que vai sendo há medida do teu envelhecimento. Correrás para ele, refarás curvas e recurvas noutras direções, seguiras linha reta tão lento quanto possível? E chegados lá, que fazes?

dois caminhos

Há dois caminhos. É decidir por um. Ou lês o resumo do livro ou o livro em si. Por estes dias, o resumo do livro já são duas frases, às vezes uma e não fica em lado nenhum, em nenhum suporte físico, nem sequer dentro de um arquivo morto. E se esse resumo é uma foto virtual pior, ficou por ai, tiram-se às centenas e morrem logo ali.

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amor

Não tens tempo de ouvir a pergunta quanto mais dizer a resposta e já lá estás, uma pulsão abrupta, e só deixas de tremer mais quando estás perto, mas isso chama-se paixão. Dura pouco, não mais que dois anos. Dizem.

Lá para depois da quarta paixão ainda não controlas o que dás. Mas não vais ter ninguém a dizer-te o que fazer, nem sequer uma arma apontada à cabeça, nem é preciso, porque já deste tudo o que tinhas. Se mesmo assim a paixão não dura e o amor não fica, o corpo quebra-se no chão.

Se ficas depois da primeira guerra, depois da segunda aflição, depois do terceiro problema sério, depois da morte, já lhe podes chamar isso maior, amor.

Lá para depois do primeiro amor vais controlar o que dás.

 

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