Escrever porquê?

As palavras fogem e queimam, e tarde se descobre a vontade de escrever mais uma palavra, mesmo que encaixe retorcida esbaforida quase próximo da loucura, no minuto antes de terminar o parágrafo. A cada uma vais tu perguntando que merda faço eu se escrevo tão mal e tudo sai tão a ferros e há quem o faça tão deliciosamente… 

Que interessa isso, se a escrita, o ler, o ouvir a leitura, te salva da loucura todos os dias, que interessa isso!? Bem sei que interessa se a tua intenção é ser um escritor, pertencer a uma das mais altas castas que se erguem ao mais alto nível do nível mais elevado do ser mais alto que existe acima das mais altas alturas da sociedade… Bah! Não interessa nada rapaz. Nada. 

As escalas, métricas e réguas são de outro lugar, da Ciência, por exemplo, e lá ficam muito bem. Tu que escorregas vida adentro todos os dias, do mesmo modo que todos esses altíssimos escritores, vão todos vida adentro com as mesmas relíquias. A diferença está na fama. A tua é zero e continuará. Mas não estás louco, como os famosos também não estarão. Só não escreverás deliciosamente nem terás fama. Só isso. Bom, há mais do que deliciosamente, há uma escrita que te deixa depois, e não és o mesmo, não. A minha nunca fará isso, mas a desses que escrevem, que dão a sua vida por essas páginas de magia e ao mesmo tempo eternas, obrigado. Sem isso era a loucura.

Os funcionários 

Estava a pensar numa história assim. Feita de tantos feitos, feitos já feitos, já passados. Baseada na história de Eichman, a partir do julgamento descrito por Hanna Arendt, em Israel, a dizer que somos cataventos, dançando conforme os tempos políticos, com pouca autonomia, discernimento, clarividência, pouco corajosos, somos todos assim, constrangidos por milhentas desconfianças em nós mesmos, à espera do grupo suficientemente grande onde cabemos e onde nos sentimos seguros. Somos mesmo assim. Outros não, arrastam-se convencidos, confiantes de que é esse o caminho, seja Eichman como um Resistente Francês, seja pelo ideal de superioridade pré-definida, seja pela liberdade, confiam que é esse o caminho, seja miserável ou pela alegre. seja pela intolerância ou pela tolerância, seja por uma certa ordem ou pela diversidade. Acabamos todos por ser funcionários de um ideal, mesmo que não concordes com esse ideal, acabas, por em geral aceitar isso, porque convém naquele momento. Eu acima de tudo, desde que eu sobreviva.

Envelhecer

Ninguém quer morrer, nem um porco, nem uma formiga, nada, ninguém, nem nós. Discutimos, investigamos, pagamos tudo para que a morte não se aproxime tanto, argumentamos, praguejamos, e tudo isso no mesmo sentido, não queremos morrer. Mas, ao invés, todos os dias fazemos para morrer: excesso de velocidade com os automóveis, excessos na comida, excessos no trabalho, excessos no consumo, excessos ambientais.. Quer isso dizer que estamos a cometer um suicidio colectivo!?

Coisas

Há trinta e uma mil coisas e mais outras tantas a acontecer e tu sem saberes de nada. Ainda bem. Loucos são se julgam saber tudo, acompanhar tudo, viver tudo, lamentar tudo, ajudar a tudo e todos. Prefiro não saber de nada a não ser do quintal onde alguém se vem sentar, numa cadeira pronta, com história incontável.

Só 

És só um corpo, não há mãe nem pai que te possa dar mais do que atenção, e só te lançam um lençol por cima até que o médico, cansado, te meça a tensão, mas pense que mais vale estar este corpo, gordo e deformado, morto, do que a meses ou anos de se finar.

És sempre mais só do que parece

Não sabia

“Não sabia”- chutou seco e de surpresa – “juro e não preciso de ter os pés juntos, nem sequer de saltar” – ficou parado de boca fechada – “eu não sabia que os outros eram como eu, pensavam como eu, na intimidade, percebes? Quer dizer, também são loucos, desconexos e incompetentes; incoerentes, sós e parvos; tristes, medrosos e cabisbaixos” – e parou com os olhos em cima de mim – “Ah merda, não sabia que eu era como todos. Que afinal a vida deles também é estúpida, também tem erros e absurdos, também vão sozinhos, são tímidos e envergonhados, pouca estima e menos confiança ainda.” – “Ah foda-se, juro que não sabia”