O que se perde de vez

Há uma voz que disse, vocês europeus perderam o sentido de família, é esse o vosso problema principal. Bem verdade. Ainda vai havendo sintomas de ajudar quem está, ou deveria tar, mais próximo. Não é que seja o problema principal, é um deles. Esta correria empurra-nos, e no fim, estatelamos-nós no chão como perdidos. Há volta nada, ou muito pouco. E nem a poesia te salva do que perdeste. Ficas sabiamente ferido. Para sempre. Dito.

Liberdade e riqueza

Não importa se tens uma visão de que tudo isto é uma selva, ou se a tua ideia é a da lei, os dias não deixam de passar e a tua vida não deixa de se fazer, estejas parado, sentado, inerte, depressivo, vagabundo, ladrão, preso, açoitado, torturado, amordaçado, ou na miséria, nalguma festa, ou na praia, perto de quem queres ou solitário, no meio do mar, ou na terra solta, fica tudo uma incerteza maior se olhares para todos e aí sim, faz diferença. Mas não deixa de ser uma febre a conquista da liberdade, vivas em ditadura do que quer que seja ou já no meio da liberdade, é uma luta alcançá-la é uma luta mantê-la. Sendo eu um ladrão, mesmo que tenha roubado em miséria, para satisfazer uma necessidade, não o posso lamentar, há esse paradoxo, um gume de faca que teremos de aprender a navegar. Mas eu quero a lei, a democracia, a distribuição da riqueza, a possibilidade de vencer, nem que por um pouco apenas, para viajar com esse dinheiro, para que me seja dada um pouco de liberdade, que não seja apenas a de poder falar, não que menospreze, mas depois disso que outros lutaram, estamos nós que, para além de a manter, temos de a preservar, e de garantir-lhe que a riqueza se espalhe para que a liberdade de viajar seja mais uma liberdade possível, para que ninguém tenha de odiar para ter uma malga de sopa no colo.

Ali

Daqui para ali não saberás por onde vais, embora os sonhos e as vontades te empurrem. Mas ali pode ser um banco de jardim perdido neste planeta onde te sentas tão só como o próprio banco, tão inerte e sem esperança como esse mesmo banco.

O Gato

O Gato morreu hoje. Não é nem o meu gato, nem um gato, é o Gato. Espremesse o meu coração e sai uma alegria enorme quando penso nele. Mas a saudade que deixa, a companhia que fazia, a  falta que faz, torna este mundo muito mais triste. Uma delicia de animal, uma serenidade e uma sabedoria que nenhum de nós alcançará. Um animal acima de todos os animais, nem precisava de falar, sabia muito bem comunicar e sabia muito bem o que queria. Amo este gato, o gato, como um filho, um companheiro, um amigo. Protegi-o, tirei da minha boca para a dele, fiz sacrifícios para o bem estar dele, partilhei alegrias e tristezas com ele, seja quando estava zangado ou quando era a minha vez. Fazia parte da família. Acho que conversava mais com ele em silencio do que com os amigos numa festa, aprendia mais em silêncio do que a falar com os humanos, acalmava-me, bem podia vir zangado que o olhar dele me dizia, deixa lá isso, não tem importância nenhuma. Dá-me mas é colo! Obrigado Gato. Foi um prazer viver contigo.  Só escrevo isto porque não consigo conter esta tristeza. Tinha muitos nomes, diminutivos e aumentativos. Amanhã direi mais. Hoje vou chorar.

Sob qualquer deus

O ser humano vive sob qualquer deus, desde que acredite que essas leis dão ordem lógica dentro da bolha em que cada um vive, no grau de desinformação que esse cérebro é capaz de suportar, adequado à cultura que aprendemos, ao que vivemos e sentimos. Não só suportamos pouca desordem como as experiências traumáticas de guerra, fome, desordem e mau estar vincam e encerram essa bolhas em ódio e desesperança.Mesmo que issoa ocnteça todos os dias no ecrã e seja só essa a fonte de desinformação sobre oq ue de facto se passou.

Ao contrário ficamos desorientados com tanta informação contraditória. E se alguém chega à porta pedindo auxílio, reforçando que o teu contributo é crucial, há por ali um caminho, pertences a alguma coisa, há uma ordem, mesmo que não concordes com tudo o que esse deus te diz, pelo menos ficas com a bolha varrida de algum lixo que provoca desordem.

Também é verdade que temos algum grau de escolha, há um momento em que escolhemos uma ordem, escolhemos isto e não aquilo, de acordo com  a nossa cultura, com o que aprendemos, com a experiência, com aquilo que sabemos, com as opções que chegam neste momento. Matar ou morrer? Matar em nome de um ódio que nasceu de uma desordem enigmática? Esconder os olhos e os ouvidos à miséria? Esquecer que o que faço prejudica outros, os futuros outros ou a mãe natureza por si. É um processo de encerramento onde os outros não existem. Pelo menos os outros distantes e odiosos.

Mais ainda, tendemos a credibilizar esse deus se tem história, se vem do passado, se vem de uma tradição, se já era assim com os teus avós, isso significa mais experiência, terá mais sabedoria para enfrentar o futuro. Acabas por pertencer a um grupo onde te vão agradecendo, no minimo, a tua participação. Até conseguimos sorrir.

Só muito mais adiante, essa bolha encerra, arrependida, o floreado é sempre falso, esse deus provoca sofrimento, transforma-se num diabo, ele mesmo intoxicado pelo poder, humano, não tolera que o deponham ou que o contradigam.

E no meio disto tudo, ao contrário disto tudo, temos as bolhas abertas, ávidos de informação, até ficarmos intoxicados, queremos saber de tudo, estar bem informados, comemos o tempo, à procura de ordem, consumindo este e o outro mundo, de algazarra em algazarra, em filas intermináveis, estamos confortáveis, lá seguimos esse deus.

A verdade, é que com muito menos podemos viver e melhor viver se com os outros podermos concertar pontos de vista. Vai mal este mundo quando se cega aos outros, criando muros em vez de pontes, por medo ou por falta de oportunidade, ou por excesso de informação e desinformação.

Deste lado, não quero confusão nem muito alarido, lá vamos seguindo a nossa vidinha, numa bolha mais ou menos equilibrada, falando com todos para podermos ver todos.

Vamos vendo sim, vemos sim, outras maçãs podres cairem, digo, diabos, e outros deuses aparecerem. Não sabemos as suas agendas, não sabemos ao que vêm, mas que arrastam multidões que se vão encerrando, numa tradição que não é a Europa do Tratado de Maastricht, 1992, mas que nos irá cair em cima dentro em breve.

Amor

Disse-me mesmo à beira do balcão, com meia dúzia de garrafas  em frente, que o sexo ou o amor que fazia com a mulher, sabes?, não me lixes, isto não sai daqui, que a minha mulher é tudo para mim, enquanto o faço, enquanto isso, percebes, pensava noutras, que via por aí, a mulher já não o excitava, sempre da mesma forma, mas amava-a e não quero outra mulher, nem sequer estar com mais ninguém que não ela,  percebes?, se não pensar nas outras mulheres não consigo. Daqui só vou quando estiver sóbrio, não entro em casa desta maneira, ela não sabe que bebo, talvez desconfie, também não sabe que penso nas outras, talvez desconfie, mas isto deixa-me de rastos, pesa na consciência e bebo para esquecer, levo-lhe flores, não me esqueço de a convidar para um copo, ofereço-lhe sempre algo especial no aniversário, ou quando me lembro do melhor dia da minha vida, o nosso casamento, e lembro-me dela quase todas as horas do dia. Se ele saísse da minha vida era como se arrancassem um pedaço de mim, espero que eu morra primeiro para não ter que sofrer a morte dela. Fiquei calado e fui ouvindo. E perguntei-lhe o que pensaria ela para fazer amor com ele? Em que pensaria ela? Eh pá agora é que mataste a coisa… Sim, ela também terá as suas estratégias.

Não vi

Não vi

Não sei

Nada disto faz sentido

Nada

E contudo vamos, só para satisfazer o verbo

Como condenados a ir, a passar

E por isso não vemos, não sentimos

Nenhum verbo mais interessa que não ir ou passar, fluir

E quanto mais depressa melhor,

Isto ajeita-se ao verbo

Vamos, passamos sem sentir.

Certo ou errado? Que interessa, vamos.

Franz Einstein, 4 de junho 2018