medo

o medo dos outros, acrescenta miséria, desordem, desalegrias, desavenças, intolerâncias, mais medo, maior medo e desorientações imersas, horrores escondidos, bombas latentes, diferenças que se tornam fronteiras, barreiras e muros maiores, até tudo se tornar em guerra quando podia ter sido uma conversa tardia ao sabor de uma refeição que só tu sabes fazer.

amor muito diferente

as mulheres amam de modo muito diferente do que os homens

ainda bem

Franz E., 20 ago 2017

o teu

Pois. Esse é mesmo o teu caminho. Sim. Tu que agora me lês e que acordas a pensar da infelicidade da sorte, aquilo que poderias ter feito e o que fizeste, por onde andaste e não devias, o que és e não queres, onde estás e não desejas, o que tens e poderias ter (o que menos interessa). Aceita. Onde estás, o que fazes e o que és. Se pensas, faz o que pensas. Mas aceita o que és assim, ponto.

setembro 2016, Franz E.

vais-te despir em público?

é mesmo isso. escrever é como despir-se em público. ou melhor. quando se publica é mais assim. despir-se em público. nem todos o conseguem. assumir-se. aceitar-se. tal qual. a maior parte das vez escusamo-nos por detrás do “se calhar não é bom”, para quê publicar. mas é mais, não tenho coragem de dizer o que sou e o que penso e de o defender. claro.

não sei

Veêm-se de quando em vez. Trocam um beijo e um olá, falam do tempo e ele pede-lhe um café. Os olhos sorriem, o corpo contorce-se e ela ajeita o cabelo, o sorriso fica por ali à espera da deixa dele. Fazem amor sim, nestes exiguos instantes, já me convenci disso, ao fim de tantos anos a vê-los, são os dois casados e gostam-se de olhar. Nota-se. Mas não é triste, não, são os dois de família, e sabem  disso, é mais importante do que se esconderem numa casa para trocar de corpo. Não, não, não é amor.

amigo

quem o diz “amigo”, depois da mensagem no fim de tudo ou no princípio

olá amigo. adeus amigo. sou amigo

pois. os amigos ficam no fim. e são poucos.

ficam com o desespero a desesperança o desalento ou a desilusão

a outra parte dos amigos

é a solidão da idade

vem o tempo extenso e ficas só

não falas aquelas falas de coração na mão

tão transparente que até te surpreende

mesmo a ti próprio

os amigos também medem a idade, são poucos e continuam sendo cada vez menos.

um casal maior

Há uma casa. Mesmo em frente à minha. Esteve vazia e agora sai de lá uma senhora que caminha com dificuldade e um senhor que regressa todos os dias de manhã com um saco de plástico pendurado na mão descaída, a baloiçar como se não fosse precisar dele. Bem cedo. É quando o vejo mais vezes.

Chega assim a casa, todas as manhãs, depois lhe terem guardado o pão no café ali ao lado. Regressa ao café a meio da manhã para trazer o jornal. Depois de uma conversa inútil, algumas vezes útil, o café frio mas não quente, é preciso exatamente doze minutos para que esteja na temperatura ideal, vai desfiando conversa. Quase sempre sem se saber do que se fala. Nem sequer o que se passou. A maior parte das vezes sem consequências. Outras vezes, e ai sim, interessa, a partir de históris de vida. Se são as suas melhor, são aquelas em que é perito.

Dizia. Se vem história pelo meio, daquelas que sabem bem, e que já contam com muitos anos e acrescentos pelo meio, então interessa. São poucos minutos, mas cada um vai dizendo até que o ponteiro do relógio lá no alto, quase junto ao teto, e depois de um olhar rasante diz que é tempo de ganhar rumo para outro lugar, mesmo que não seja longe dali. Com o jornal em punho, senta-se no automóvel estacionado em frente de casa, murmura alguma coisa enquanto o folheia, não sei o quê, só vejo os lábios moverem-se. Uma atrás da outra, cada página seu tempo, se interessa fica mais um pouco, se não, folheia e mexe os lábios, com os óculos segue as gordas, ou melhor os titutlos a cheio, sentado no passado que era quando dava à chave, ouvia o roncar do motor e passeava com a mulher que agora quase não anda.

Imagino que devem ter dado o primeiro beijo ali e até alguns gemidos mais enamorados. Ele fica mais entusiasmado, mexe mais, quando ela se senta ao lado. Guarda o jornal e fala com ela como se fossem em passeio. Imagino até que lhe vá a contar alguma das suas viagens mais longas e românticas. Gesticula e aponta para fora, faz arcos com os braços e vai olhando para ela. Sorri-lhe. Ela está quieta, não responde, olha para ele, mas pouco, já tinha sido um martírio sentar-se ali, quanto mais agora estar a responder à felicidade do homem, às ilusões dele. Nunca se sabe quando terminam este namoríco, ou a viagem. Vejo o carro vazio a maior parte das vezes, e quase sempre no mesmo lugar. O automóvel nem é assim tão velho, parece mais usado do que idade por ter mais remendos do que o habitual. Um dia desses proponho-lhes conduzir-lhes o carro a um lugar que lhes apeteça.