– “Estou a escrever.” – rosnei – “não vês!?”

-“Estou a escrever” – Rosnou – “não vês!?”

– “Não páras com essa treta!” – Arremessou – “Para que te serve isso?” – Melindrou-o ela logo a seguir. Era mestre nesse ofício. Ele calou-se, como de costume, mas pensou e disse o que pensou, no próprio silêncio, claro. “Verdade, para que escrevo?” – Pensou. Para a fama, pode ser uma resposta. Para dizer que esteve aqui, nesta bolha-espaço-tempo, que não existe, se não neste universo, que é em si essa bolha. E ao morrer, não saberá sequer que está morto. A morte é um nada tão nada que nem saberá que morto está. Nem que a vida-bolha existe. Porque escrevo então? Para ser útil a alguém, nem que seja a um apenas. Imagina que dará alento a outro, ou outra qualquer, perdida ou perdido, achará caminho no que deixou escrito. E ficou-se nesta resposta, solidária e politicamente correta. Se a desse a um jornalista, aquando da fama, numa entrevista entre uma conferência e uma viagem para outro continente, a fama em si, ninguém a julgaria errada, decerto.

Queria ser escritor, há muito seguia esse desejo, mas não convencera ninguém, sem dotes especiais, sem os conhecimentos, que é arte difícil, como qualquer arte, persiste, de facto, insiste e não esquece de escrever, de quando em vez um pensamento, ou uma ideia, daqueles que fluem sem anúncio, escreve num resto de papel, num canto de um guardanapo, ou de um bilhete de cinema. Talvez que a resposta seja outra: a de ficar aqui, firme como rocha de mar, ou de serra, onde também as há, preparado com palavras apenas, mas preparado, para o que vem.

“E tu estás ai, ou vais fugir, ficando ai, descer os braços e lamentar que o tempo seja este?”

roubei

Bem verdade. Roubei. Não preciso mentir sobre isso. Não quero. Foi o que decidi. Se tens fome, rouba, pensei. Se não podes, rouba. Que mal tem? No fim do mês vais juntando. E quando o tiveres todo, então pagas. Até já trabalhas. Ao fim de algum tempo terás o suficiente para saldar.

Também não era de fome que padecia. Dirão vocês que não tenho argumentos para o efeito. Pois, não conhecem a minha história. Já esbanjei dinheiro. Já tive família. Já conheci a fama. Já vi o inferno também. Sou já homem para compreender o significado da lei e da honra, da dignidade e da realidade.

Se não era fome, então para quê roubar? Ela queria uma mala. Escolhi a mais barata, a que estava mais a jeito de levar. Não podia, de modo nenhum, deixar de oferecer uma mala, a quem me acolhera com o coração, sem perguntar de onde vinha, ou quem era, ou ao que vinha. Não suportava a tristeza de quem se sentara comigo nas escadas, ouvindo e falando, enquanto a avó me trazia pão e sopa. Não suportava ver triste quem me dera uma vida por inteiro.

Como não podia? Mesmo que isso fosse deitar a honra e a dignidade porta fora. Como não podia sacrificar-me por isso? Ir a casa e vê-la com os olhos adormecidos: os livros aconchegados aos cadernos, as canetas e a lapiseira, tudo numa sacola cozida à mão, em cima do banco, na cozinha, tudo pronto à espera do dia.

Que mal faz isso, levar uma sacola no primeiro dia? Eu sei disso, ela nem esperava outra coisa, aceitara-o com o mesmo coração que me sorrira. Mesmo assim decidi roubar. Ou melhor, roubar para pagar depois.

Nesse mesmo momento, em que amarfanhei o plástico que envolvia a sacola com os meus próprios dedos, sabia que entraria ali para pagar. Mas ela começava a escola no dia seguinte, deixei que os dias se esgotassem, para me empurrar a fazê-lo. A vergonha encheu-me, os olhares dos outros invadiam-me. Num soslaio comprometedor, ao mesmo tempo que apertava a sacola debaixo do braço, fixei um homem que descia a rua. Trocámos olhares, pareceu perceber o que se passava. Encolhi-me em mim, e segui esquecendo que marchava a passo largo, rua abaixo. Virei uma esquina, e outra, e outra, outra ainda, e parei ofegante, ergui o braço e, para espanto meu, lá estava a  mala, envolta num plástico poeirento, esmagada pela minha mão.

Espreitei atrás da esquina e não vi ninguém. Ou ando agora a ser perseguido, ou ele fingiu que não viu. Continuei arquejante ao mesmo tempo que a felicidade me alagava. Poderia agora retribuir a alguém que não me pedira nada em troca.

1ª Parte: encontro com o pó da cidade e o fresco de uma criança

José, O Quinas, vivia em Lisboa, junto a um beiral que o abrigasse pela noite, das agruras do maldito tempo. Já sabia. Além disso, tinha consciência do facto: este dia esquecer-se-ia como os outros. Outros tempos, raramente recordados para poupar o seu corpo, e porque a vida que levava não lhe escondia a condição do mais velho pedinte da sua zona. Ainda vivia. Seria essa a maior ambição de quem por ali se espalhava. Outros como ele viviam na rua, da generosidade de uns da grandiloquência de outros, por esta ou aquela razão a rua era um lugar que esperava, o sítio que nunca te recusa. Muitas organizações tomavam conta de nós. Dedicavam-se a estes perdidos. “Para quê? Já estamos mortos!” Mas só os olhos poderiam gritar, não havia corpo com forças para vociferar. “Combater a pobreza”, diziam os responsáveis. Era esse o leitmotiv destas generosas pessoas. Mas como é isso possível se o infortúnio é uma palavra no vocabulário, perdida e repetida no tempo e no espaço. Para mim, era a fome que me levava até eles, vontade não havia nenhuma, e a única pobreza aqui era a do espírito. Era a falta de lucidez. Era a ausência de valores, de limites, de cuidado, de lentidão. Era o não se aceitar a lentidão. Foi o pensar ganancioso, para além dos limites humanos, o aceitar objectivos inacessíveis, capazes de liquidar uma família inteira. Estes discursos, alguns famintos de poder e exibição, rodeados de boa vontade, caiam na altura festiva do Natal, época da ilusão, inundando a noite de guloseimas, roupa e cama quente. Tal como vinha, também desaparecia. O que mais enojava era o alarido da festa, ilusões meus queridos, ilusões. Essas palavras vêm destruídas por dentro, estilhaçam-se nestes dias e nada fica para se aproveitar. Esses sons já se conhecem, destruídos que são na realidade fria de uma anteporta empedrada, ali segura no tempo, onde se enrola um corpo imundo, em roupa suja entranhada pelo frio que não se sente até que o Sol surja no dia tranquilo. Continue reading “1ª Parte: encontro com o pó da cidade e o fresco de uma criança”