cidade

Aliás, comparava toda esta investidura que vivera até agora com a vida de uma cidade; os longos corredores por onde fogem os-outros em fuga acossada, os longos automóveis que se engolem uns aos outros numa louca correria, lembra a fuga do casamento, aos gritos estridentes do som abafado das injúrias furibundas fugidias dos objectos rigorosamente estranhos de um casamento que se ausenta sem nunca desaparecer por completo.

Continue reading “cidade”

mulher

Sonhei que tudo era fácil. Maria compreenderia a minha vida, a minha ambição, pensei que fosse fácil para ela, sonhei. .. ou estava iludido, pensando que a realidade era isto mesmo, uma boa vontade pegada, não é preciso mais nada. Que seria fácil para ela, até agradável, que ela estaria só para mim. Agora também sofre. E Maria, o que desejaria ela, quais eram as suas ambições? Via-a como uma grande vagina, como vejo outras mulheres, apenas para prazer, não pensam, não desejam, não querem, não teorizam, não ambicionam. Não fazem mais do que atender aos filhos ou ao homem. São mandonas mas só até certo ponto. Exigentes quanto baste. Mas isso já não é uma mulher, é a tua mãe. Maria era uma mulher.

Continue reading “mulher”

a cela que te encerra ou o que foste capaz de fazer

Sei ficar zangado. Sei que o mundo é mais complicado. Talvez não tenha é a consciência disso. Saber isso e ter consciência disso são duas coisas diferentes. Mais complicado se torna quando nos vamos debruçando sobre a sua loucura. E se pensamos muito, a coisa é tão intricada. Melhor é parar nalgum momento. E depois também custa fazer uma representação. Custa não ser sincero e trivial. Aceitar o teatro é difícil, vestir uma cara diferente, treinar uma cara diferente, consistente, é ainda mais difícil. Representar todos os dias, a cada minuto, personagens diferentes é outro sumo. Há um extremo de tudo isso: a mentira.

Continue reading “a cela que te encerra ou o que foste capaz de fazer”

mais só

Que vida quiseras e que vida seria, que vida foi e que agora vivemos, são tempos dramaticamente diferente, insuspeitamente diferentes de outrora. Quem poderia dizer que agora estarias aqui com a alegria no coração? Aqui onde já passaste com as lágrimas por dentro e por fora. Eu posso dizer sim, que já aqui passei com uma faca nas mãos para cortar a minha vida pela raiz. Observo. Observo vocês: observo tu; observo-te que me lês. Observo o outro que encontrei encostado a uma parede, um homem culto pensando envolto no seu silêncio. Só, mais só que pensamos. E tu também, és mais só do que pensas.

O Fraco, 7ª parte

bela

Por estes dias ela andava especialmente bela. Olhos brilhantes. Sorriso luminoso. Lábios entumecidos, roliços, rebolavam-se ao falar, afagavam-se um contra o outro, reluzentes. Os olhos negros reboludos cercam-me, pérolas fixas no meu corpo, a voz melíflua à procura de mim, grave, longa e quente… ou as gargalhadas entrecortadas, inusitadas, e um vestido que cai insinuante… além de seduzir, pedia atenção -”estou aqui, aqui, aqui”- um corpo que chamava por outro, um que pedia o outro, um riso que se prendia ao coração, eu que me prendia no olhar dela, na face esquiva, uma intenção saborosa, pendurado numa dúvida esguia até ao desejo seguinte, o corpo escondido, o prolongamento do que se deixa ver, e quando se encontram numa primeira dança, os lábios chocam-se, sugam-se, agora único corpo ligado, enrolam-se para que nada termine; os sons do desejo quebram o silêncio, instala-se o frenesim, roçando-se, apertando-se, ligando-se lentamente, esfregando-lhe a vulva, afagando o corpo com os dedos ansiosos, à procura, contraindo-se, escorrega a mão por inteiro até sentir os pelos por debaixo de uma cueca transparente, um suspiro esvai-se nos ouvidos, empurra-se a mão pelas pernas, num vaivém cortado pelos lábios húmidos. Contorce-se. Segura a mão, rebola-se, enrolo-a em mim, o corpo abre-se nos dedos que a acariciam, um gemido tranquilo de uma mulher apaixonada, despe-se, entrelaçam uma intimidade que os irá levar ao espasmo único. São um. Enquanto se agarram como náufragos do desejo, escapam-se ao real e tornam-se dois animais, amam-se tão simples como isso, corpos gotejantes, frenéticos, loucos. Sem fingimentos nem insegurança, tremiam no interior do suor e dos suspiros, dizeres, gemidos sem medo, aquilo era nosso, embriagados, inebriados até ao deleite dos corpos em segredo, bamboleando os seios de encontro ao peito másculo, ou entrelaçando as pernas, deslizando o tronco na pele suave, quando os pêlos se contactam com a brevidade de um segundo mais longo do que um pequeno uivar deslumbrante; sorvi a vagina sem respirar, meneando-lhe a anca, sorvendo-lhe o ventre e os seios desequilibrados num rosto de lábios semiabertos com uma réstia de língua, em busca … afaguei-lhe o corpo, toquei-lhe, beijei-a por todo o lado, caminhei com os lábios do rosto à barriga, dos pés ao tronco, olhos semicerrados e deslumbrados, rodeou, animais seguimos … agora sentada permitia que lhe sorve-se os seios duros, enquanto se baloiçava como num carrossel mantendo as mãos nos meus ombros, ruídos entretidos, da ponta dos pés até aos extremos da alma éramos um só, jamais assim com outro ser humano. O mesmo sentir de uma criança à volta do seu chocolate. Outras vezes procurava-a no meio da noite, com as mãos por entre os cobertores e lençóis até encontrar as suas pernas puxando as suas cuecas respirando fundo, alargando-lhe as pernas até lhe tocar a vagina com a minha língua húmida enquanto semi-adormecida ia acordando com a cabeça rodopiante e o corpo a soltar a roupa e os cobertores, toda nua desenhava as suas linhas extenuantes enquanto se alargava para me deixar alojar no seu corpo. Acabávamos por estremecer enquanto nos empurrávamos. Outras vezes adormecíamos ao sabor da tarde enquanto acariciávamos

mãos o corpo de cada um lentamente muito

lentamente seríamos uma ligação impossível de explicar descrever

escrever.

O Fraco, 7ª parte

coração

Saberás o que fazer com ele. Saberás cuidá-lo melhor do que eu cuido. É mais que uma união, que este carinho, que este respeito, amizade, que este valor que lhe atribuo: ser a minha companheira e eu pareço que lhe agrado; quer dizer, claro que agrado, ela não pára de me atazanar, eu cordeirinho inocente, caio-lhe nos braços, ela à espera de braços abertos que se fecham quando, como guerreiro moribundo de joelhos no chão, à espera que me desfira o golpe final.

Continue reading “coração”

“Sabes…”

-“Sabes… ” – Segui-lhe o olhar para me certificar de que era seguro falar agora, segui-lhe os braços, vi-lhe as mãos entrelaçadas.

-“Sim … ” – Ela já sabia. Aquele “sim” cansado de esperar.

-”Queria convidar-te para ir ao cinema… trabalhamos tanto… fechamos isto e vamos divertir-nos um pouco.” – Consegui não dizer tudo. Adiei. Verdade sim. Adiei. É que não consigo. No meio deste fervor todo, as palavras ficam engasgadas não sei onde. Não as consigo resgatar. E mais. É que ela já sabia. Fico refém do que vou dizer e dessa intuição feminina e sem reconhecer que são elas que escolhem, são elas que entrevistam muitos, querem conhecê-los, recolher informação, como se soubessem tudo, donas da verdade e do futuro. Ela já sabia. E eu aqui como um cãozinho estúpido.

7ª parte, O Fraco

Maria

Os ombros quase descobertos deixavam que um pequeno pedaço da alça do seu soutien os contornassem, ficava eu a ver. Seria só para mim? O pescoço afagado pelo cabelo curto cheirava ao sorriso dela, Maria recortava-se delicada, só havia ela, onde quer que estivéssemos, suave, energética, determinada, orgulhosa, altiva, para mim ela dançava por detrás do balcão, e só o seu olhar de soslaio fazia com que parasse. Os volumes do seu corpo que a roupa deixava ver matavam-me, misteriosas. Como seria o seu corpo? Como seriam os seios? As costas? E isso era assim todo o dia. Mesmo quando esperávamos numa fila. Talvez não se importasse. Estaria a exagerar? No dia em que ela entrou no café foi como uma salto, um empurrão, um pontapé, “És tu” – diz o corpo todo – “encontrei-te”, desde o brilho nos olhos até ao sorriso, o meu estômago eram só pilhas, repetido o olhar sobre ela, recuando, voltando a olhar, em voltas e reviravoltas constantes, incontáveis.

O Fraco, 7ªParte

Maria

Um dia pensei que o sorriso de Maria significava mais, tinha mais para mim do que supunha. Num salto cheguei a outro lugar mais inesperado. Um espasmo, súbito, sem origem, sem significado, fugidio e receoso, esse lugar que tu sabes quando não percebemos nada do que se passa. Mas feliz. É. Muito feliz. Aliás, uma alegria que não se pode esconder, o corpo é todo alegria, ela é toda perfeição, desde os olhos até ficar preso no sorriso. Ficas estúpido. Cãozinho sentado com as patas no ar e língua de fora. Estás detido para interrogatório. E pior, foi sem saber, e muito devagar, ao longo de anos e anos, quando acordas tens um lugar com “nós” por dentro. Não é teu nem dela. É “nós”. Não sabia bem o que era, mas era. Entre adocicado, prazenteiro, malandro e zombeteiro, até apetecido e saudoso: um lugar onde queremos voltar. E habitado, por ti e por ela. Só os dois. Como era bom, apareciam outros para ver a felicidade e gozar um bocadinho com a ingenuidade do casal que ainda não sabia ao certo que era. Mas já era. E quando não sabes onde estás vais atrás e queres lembrar quando a conheceste: vestia uma saia longa que quase lhe cobria os pés. – “O meu nome é Maria.” – A voz era mesmo doce. Nem o coração sabe o seu lugar. Anda ali para um lado e para o outro. Pode até ficar abaixo do fígado. Quem sabe. Adiante. As sandálias escondiam-se deixando-lhe recortar-se a pele de cor pérola com as tiras brancas. A camisola de renda ajustada ao corpo e aos seios fazia imaginar as curvas. Eu quereria tocar-lhe assim. Ao de leve e sem pressa. Os braços finos desapareciam quando lhe via as mãos falar. E ela falava bem. Com as mãos e com o corpo. Era bela.

O Fraco, 7ª Parte

elevantam-se

Há medida que me afasto dali mais a ansiedade voa, imergia nessa crueldade, existir. Cresci entretanto. Longe eram os tempos irreais em que esperava ao lado do longo fardo de caminhar. Entrava na cidade, cresce uma concha resistente. Os sonhos não morrem, escondem-se até que um dia se agitam no pó e elevantam-se. Esperamos. Esperamos e esperamos. Ora ai está. Na vida não se espera, faz-se. Imagina-se o que quer, pensa-se na ordem em que se quer fazer. Senti as tarefas à espera, objectivos sérios para conquistar. Cansado e completo. O que julgamos sobre nós próprios é supremo… cada um sabe de si. Ser capaz de aceitar isso e assumi-lo perante os outros é um dever muito difícil. O que fazemos conta e o que aprendemos é um passo em frente para a humanidade inteira. Pelo menos assim penso e assim falo a todos. O que decidi está certo.

O Fraco, 6ª parte