O Fraco

[se vais à vida, vai com o peito de frente e o corpo todo por diante, sem adiar seja o que for, que envelhecer é possível e morrer certo.]

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vertice2

já podes guardar contigo

tem pernas. não sei se anda. sei que já podes encomendar. basta enviar um email para o sitio certo. franzeescritor (arroba) yahoo.com

Marketing_O Fraco out 2015_V1

certinho

vieste hoje dizer-me que não. que não é possível. que não faz sentido. melhor é ficares ai sentadinho à luz do ordenado certinho. ora os inhos são simpáticos mas não te fazem, não fazes, não me fazem.

não é que os inhos dos outros me causem repulsa. nem sou contra eles. cada um tem os seus. mas eu não gosto dos meus. e por isso vim dar o que já está feito. um livro. meu. só meu. cozinhado, escrito e empratado por mim. sem tirar nem pôr. do princípio ao fim.

o único desejo agora é o mesmo que desejamos aos filhos. se ganharam pernas, que andem por si, só por si. se for ao contrário, pois tristes ficamos mas o mundo não se importa com isso. só eu. só eu me importo.

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O Fraco, versão do meio
O Fraco, versão do meio

bilhete

Reconhecia ao fundo uma silhueta de um homem e da sua carroça. O animal puxava a enorme carga com esforço, a mando do dono empenhava-se em vencer as agruras do caminho; a carroça pesada cambaleando como um embriagado ligada ao corpo do animal por cintos, que apertavam como um cilício; aos dois, sem tréguas, o vento e a chuva fustigavam as capas humildes, que mesmo assim se adiantavam por entre o ardil da Natureza. O dia começava cedo por estas paragens, e mesmo a chuva não impedia que a vida prosseguisse lenta e estóica. Eram estes os lugares da vida, da morte e da criação, eram lugares onde o tempo não existia, lugares serenos, ocultos e sem novidade. A sua beleza nascia com as gentes, nascia sem querer e mantinha-se eterna; não era suficiente ser para viver ali, era necessário nascer aqui para se viver naqueles lugares, para mim, magníficos. Pensava eu que o meu caminho era adiante, quando afinal aqueles lugares que o meu olhar breve observava escondiam o ser e a serenidade. Quantas vezes o sentira durante os passeios pelas terras da minha terra, mas agora a minha vontade era outra e… só deixara um bilhete àqueles tão chegados,

O Fraco, Franz E., 2ª parte, p.21 e 22

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a viagem

À presença da Natureza, sincera e objectiva, contraponho a gargalhada humana, escrava da hipocrisia.

Lá fora a Natureza acompanha-me por inteiro, até à alma e o corpo mole; o cinzento enche as ruas, as calhas transbordam, e nem as janelas se podem abrir, tanta chuva tocada a vento, vento que assobia frinchas adentro e a tempestade não arreda, agudiza-se mais ainda. As janelas cobertas por colunas pequenas de água, vidro abaixo, espirrando, não deixam ver o que quer que seja. Olho-me. Raiva e ódio sinto, sorriso hipócrita, face opaca que teima em ficar, são meus, este corpo e esta face nesse espelho, e o espírito, as fraquezas também não se vêem… tudo! Porque haviam de ser meus? Na lama, é onde vivo… como se um caixão me adornasse a forma do corpo, crispado por dentro. Não se esqueçam (falo para ti), estamos comprometidos com um caminho único, não sabemos qual é, nem está determinado e que só a aparente diversidade de escolha pode justificar alegria.

O Fraco, Franz E., 2ª parte, p.17

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mover

A Natureza deixa ao homem esta inevitabilidade, a de se mover, enquanto a tez é enrugada de constrangimento e insegurança, num corpo curvado, cheio pelo sorriso malicioso, de quem sabe que tem futuro, que o futuro é seu e ainda o desconhece, embora de corpo recostado, sei-lhe o interior cheio de vitalidade para romper o futuro e cultivar nos campos o pão que lhe arrasará a fome, a ele e principalmente aos seus. Travou-se o início da tragédia.

Franz E., O Fraco, 1ªParte, p.16

estou aqui!

-”estou aqui, aqui, aqui”- um corpo que chamava por outro, um que pedia o outro, um riso que se prendia ao coração, eu que me prendia no olhar dela, na face esquiva, uma intenção saborosa, pendurado numa dúvida esguia até ao desejo seguinte, o corpo escondido, o prolongamento do que se deixa ver, e quando se encontram numa primeira dança, os lábios chocam-se, sugam-se, agora único corpo ligado, enrolam-se para que nada termine;

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ouvi porque tinha ouvidos de ouvir

Contou-me e eu escrevo a impressão que me deixou. Não são as suas palavras letra a letra, são as texturas e as melodias do seu tempo próprio.

Vivo com a mesma ânsia de ser acossado por perjúrio: que desconhece que o fez por não saber que o que fizera, que construíra afinal um juramento falso: fora falso consigo e com Maria. A mulher dele também se chamava assim. Para um homem de 28 anos, casar-se pode ser um acto falso. Não porque as suas intenções sejam a de causar dor, apenas porque não lhe é possível melhor com esta tenra idade. Um juramento nas estacas do impossível, realizado em ilusão idealista não sabendo que não é possível. E não é.

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