escrever

Há quem diga que é preciso ser louco, até mesmo doente, para se escrever alguma coisa que valha a alguém, agora ou mesmo daqui a décadas. E que bem melhor é se te mantiveres anónimo enquanto escreves. Se a celebridade te atinge lá se vai a independência. Dizem. Sei lá. Vai dai fico a pensar que tudo o que fazemos com algum significado cabe numa mochila pequena porque o que importa é mesmo o que és agora aqui nesse mesmo momento. E se pelo meio escreves, melhor para ti, pelo menos reorganizas-te, mesmo que o que escreves não valha nada, que é o mais certo.

Escrever porquê?

As palavras fogem e queimam, e tarde se descobre a vontade de escrever mais uma palavra, mesmo que encaixe retorcida esbaforida quase próximo da loucura, no minuto antes de terminar o parágrafo. A cada uma vais tu perguntando que merda faço eu se escrevo tão mal e tudo sai tão a ferros e há quem o faça tão deliciosamente… 

Que interessa isso, se a escrita, o ler, o ouvir a leitura, te salva da loucura todos os dias, que interessa isso!? Bem sei que interessa se a tua intenção é ser um escritor, pertencer a uma das mais altas castas que se erguem ao mais alto nível do nível mais elevado do ser mais alto que existe acima das mais altas alturas da sociedade… Bah! Não interessa nada rapaz. Nada. 

As escalas, métricas e réguas são de outro lugar, da Ciência, por exemplo, e lá ficam muito bem. Tu que escorregas vida adentro todos os dias, do mesmo modo que todos esses altíssimos escritores, vão todos vida adentro com as mesmas relíquias. A diferença está na fama. A tua é zero e continuará. Mas não estás louco, como os famosos também não estarão. Só não escreverás deliciosamente nem terás fama. Só isso. Bom, há mais do que deliciosamente, há uma escrita que te deixa depois, e não és o mesmo, não. A minha nunca fará isso, mas a desses que escrevem, que dão a sua vida por essas páginas de magia e ao mesmo tempo eternas, obrigado. Sem isso era a loucura.

John Berger

morreu. não li. não vi. nem assisti a nada da sua criação. se foi dedicado à arte e à cultura, com uma opinião sobre as coisas, valerá a pena ler. mas não se pode ler tudo nem estar em todo o lado. alguém o viu, o leu e o estudou, às palavras, às imagens e às artes. e se fala claro, é porque pensou muito. refletiu. e disso há pouco, muito pouco. tempo para estar sem nada que fazer a não ser pensar. por isso confio no julgamento de quem o conheceu. será pois importante. pode até nos ter influenciado sem o sabermos. morremos todos. uns ganham umas linhas nos jornais. outros no coração de alguém. outros só desprezo. e outros é com se não estivessem estado. despreza-se aqueles que causaram sofrimento deliberado. filhos da puta.

Anúncio da morte: https://www.publico.pt/2017/01/02/culturaipsilon/noticia/morreu-john-berger-um-artista-total-1756862

Entrevista: https://www.theguardian.com/books/2016/oct/30/john-berger-at-90-interview-storyteller

 

escrever

As palavras fogem e queimam. E o escritor também. Foge cobarde a sete pés. Não vê uma, não se lembra, nem de uma, uma que se encaixe, mesmo que o faça retorcida esbaforida louca.

E outras vezes, como raio vieste tu aqui parar!? Acontece no fim, quase sempre ao terminar o parágrafo, vem uma simpática que se deita meliflua como seda. Ah, se isso acontece, morre.

Não lhe deu a sorte talento para acompanhar a vontade de ser um escritor. Será pela fama? Então é parvo, porque ao fim de tanto tempo não tem nenhuma e continua a puta da tarefa. Será pelo sucesso? Parvo ainda maior porque não tem nenhum! Fica-se a vontade. É só porque sim. Se olha, vê, sente, logo escreve num resto de papel se for isso que esteja à mão. Outras vezes anda um mote de uma história a correr atrás. Escreve-me!, diz.

E que vai fazer? Escreve, como sabe e quando pode. A caneta agarra-se à mão e ao papel e deixa recados de outras histórias, de outras pessoas. Outras vezes não foi a tempo de as escrever e fica-se, qual era a ideia? Não quereria que ficassem esquecidas, sejam histórias, lugares ou coisas de todos os dias. E vai dai crescem mais umas quantas palavras no papel. E ao fim de tanto tempo tens um livro que vale quase nada. Escreve. Palavras que digam ao ouvido, viu, ouviu, sentiu e sabe. A cada uma vais perguntando que merda faço eu se escrever é tão difícil e há quem o faça deliciosamente. Escreve.

casa

“A nossa guerra acabou, e estamos escondidos numa toca de terra e temos de sair e recomeçar a caminhar. Esta é a casa de Schmulek que não tem casa, que perdeu tudo, até a si próprio. Onde está a minha casa? Não está em lugar nenhum. Está na mochila que trago comigo, está no Heinkel abatido, está em Novoselki, está no acampamento de Turov e no de Edek, está para çá do mar, no país do conto de fadas, onde o leite e o mel escorrem pelo chão. Uma pessoa entra em casa e pendura as roupas e as recordações; onde penduras as tua recordações, Mendel filho de Nachman?”

Primo Levi, p.254,  Se não agora, quando?, D.Quixote, 2015

esperança

“Se tornar a meter o olho entre páginas e receber sinceridade, esperança e sentido com certeza que lerei.”

Editorial do Jornal Público, p.34, 5 Março 2009

mesmo para quem não consegue ler António Lobo Antunes

insatisfação

a vida tem uma ligeira insatisfação. E depois vamos visitando os nomes que vivem no imaginário da escrita, da nobreza intelectual e pedante, para descobrir que a nossa é a vida deles e que a deles a nossa. Sem mais nem menos.

compreender os outros Understanding the others

“Em que medida é possível compreender o amor ou o sofrimento de uma pessoa? Em que medida podemos entender os que vivem sofrimentos dilacerantes e opressões muito mais graves do que as nossas? Mesmo admitindo que, transbordantes de compaixão, pudéssemos meter-nos na pele dos que são diferentes de nós, como poderiam os ricos e os grandes deste mundo compreender, uma vez só que fosse, os milhares de milhões de miseráveis que vivem nas usas periferias? E em que medida o romancista Orhan podia captar a vida obscura, difícil e dolorosa do seu amigo poeta?”

Orhan Pamuk, Neve, p.265, cap. 29

My translation from the Portuguese:

‘To what extent one can understand the love or the suffering of a person? To what extent can we understand the living heart-rending sufferings and oppressions much more serious than ours? Even if, overflowing with compassion, we could get us in skin of those who are different from us, how could the rich and the great of this world to understand, once it was, the billions of poor people living in the suburbs you use? And to what extent the novelist Orhan could capture the hidden life, difficult and painful of his friend the poet?”

Orhan Pamuk, Snow, p. 265, ch. 29