longe ou depressa?

proverioAfricano

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não sei

Veêm-se de quando em vez. Trocam um beijo e um olá, falam do tempo e ele pede-lhe um café. Os olhos sorriem, o corpo contorce-se e ela ajeita o cabelo, o sorriso fica por ali à espera da deixa dele. Fazem amor sim, nestes exiguos instantes, já me convenci disso, ao fim de tantos anos a vê-los, são os dois casados e gostam-se de olhar. Nota-se. Mas não é triste, não, são os dois de família, e sabem  disso, é mais importante do que se esconderem numa casa para trocar de corpo. Não, não, não é amor.

escritor

escritor à noite e ao fim de semana, sem nenhum livro publicado, só em pdf, um blog e muitas leituras de poucos autores. Esse desmaio não impede de seguir escritor, é assim que se sente, no caminho do maior entre o maior, é uma loucura, certo, é uma loucura.

morte

Parei e perguntei a direção. Eram dois jovens, setenta anos mais coisa menos coisa. Amigos de infância, à sombra, resguardados do Sol que já ia alto. Conversámos um bom bocado. Disto e daquilo e do comboio que já não passa faz muito tempo. Um dizia que muito bem , era barulho a mais, e para que parava homem se ninguém seguia, o outro, viu como isto fica triste, sem movimento, ninguém, vai tudo embora, até o comboio vai para mais de 30 anos, se não for quarenta diz o outro, isso já não apita desde 1975 rapaz. Tá a ver. Há muito tempo. O sacana do tempo passa depressa e não volta atrás.  No intervalo da conversa, olhei para o beiral, bem alto, o resto de telhado envelhecido e suplicante que lhes fazia sombra e fiquei preocupado. As telhas faziam equilíbrio. Ouvi-os mais um pouco e logo que pude desviei o tema: “Não têm medo que o telhado vos caia em cima?” – perguntei. “Você faz essa pergunta porque ainda é novo, ainda tem medo de morrer, nós já não… com a idade perdemos o medo.” Não consegui responder a tanta certeza, nem regatear, a conversa, a franqueza, a gentileza e o sorriso não se podem pagar.

amigo

quem o diz “amigo”, depois da mensagem no fim de tudo ou no princípio

olá amigo. adeus amigo. sou amigo

pois. os amigos ficam no fim. e são poucos.

ficam com o desespero a desesperança o desalento ou a desilusão

a outra parte dos amigos

é a solidão da idade

vem o tempo extenso e ficas só

não falas aquelas falas de coração na mão

tão transparente que até te surpreende

mesmo a ti próprio

os amigos também medem a idade, são poucos e continuam sendo cada vez menos.

horizontal

estava a pensar que não nos safamos ao confronto. Que não é possível não guerrear. Que não é possível dizer não com todos os contornos. Não é possível.

E a guerra há. Há.

Melhor será que não. Que não haja. Que não há guerra. Mas há. Todos os dias.

E conto pensar todos os dias que prefiro confrontar-me com o outro cedendo e argumentando, perdendo e ganhando, até estar num sítio que não é o que queria nem o que o outro desejava, mas o que os dois conseguiram.

E isso é o que eu queria de um governo. Que fosse capaz disso. Mas não é e pronto. Quem está lá, segue agendas que disparam de todos os lados, e por vezes do lado do conjunto dos cidadãos, a maior parte das vezes do lado de quem quer mais, de uma ganância sem fundo.

E fica-se aqui sem querer esperar. Escrevendo ou não, sai-se do sofá para dizer que o melhor para todos é essa governação horizontal com uma hierarquia mais suave do que a que vemos agora. Suaviza-se a corrupção. Tornam-se as decisões mais nossas, menos de um só, da responsabilidade de um só.