dorme bem papá, beijo, até amanhã


Beijinho Tó, até amanhã

o pai (já morto): para que estás a passar a ferro esse fato?

filho: não era o que esta farda representa, o que mais te orgulhava? Quero deixar contigo. Até já combinei com o senhor, ele não te pode vestir, deixa-te na urna.

pai: isso já lá vai pá, há tempo… isto da morte são três dias, não te preocupes mais;

Filho: vais ter uma cerimónia católica, tem que ser breve. O cemitério abre e fecha só para ti… olha só o nível.

Pai: o jardim do padre está sempre aberto para quem tem que se deitar lá dentro. Até parece que fui importante;

Filho: pena não teres podido votar;

Pai: eu nem sei quem eles são, não vale a pena votar, mas tu vota; eu andei nessa luta, à chucha calada, sem dar nas vistas;

silêncio

Pai: trata da menina, ela precisa de ti agora;

Filho: farei.

silêncio

Filho: a tua aldeia está parada, chove aquela chuva miudinha que humedece tudo. É para estar em casa. Liguei o lume, mas a chaminé parece rota. Entra água. O dia nasceu e ficou assim, triste como bréu cinzento. Sem querer sair para lado nenhum. E no dia do funeral, chovia que deus a dava.

Pai: é um dia triste, mas há-os aos montes; não apanhes frio, nem chuva, amanhã chamas o pedreiro e tratas disso;

Filho: o que faço ao pinhal?

Pai: tu sabes e eu agora estou mais aflito com outras coisas – fez aquele olhar de malandro.

filho: nunca mais lhe direi “dorme bem papá, beijo até amanhã”; morremos sozinhos, sem os nossos, com os outros de outros.

Pai: até amanhã Tó, muitos beijos e um grande abraço, dá um beijo à Cristina,

Filho: até amanhã,

Pai: até amanhã Tó.

filho: foi dizer isto, sozinho, junto ao Mar, sem que ninguém o soubesse, sem que quisesse que o soubessem. Não estava ninguém. Ainda bem. Cada um tenta fugir a esta dor como pode. Não é que seja uma dor imensa. Há aquela mistura entre o alivio de não ver o outro (pai) sofrer e a tristeza de não ter a sua presença. Não é como tenha sido um pai grande. Esteve sempre presente mas sem falar. Sem convidar. Sem parecer gostar de estar connosco, os filhos. Só depois de velho, já com o filho adulto e pai, é que houve uma aproximação. Não ia deixar o pai sozinho, porque ninguém o queria. Uma maneira de ultrapassar este retrocesso que é a vida. Desatar um nó que não se desata, passa-nos lado, só isso. A vida difícil que teve, no inicio, ou no meio e mesmo no fim. Quem quererá voltar a viver!?

Uma boa parte da familia não foi ao funeral. Coisas de hoje. Virus. À parte isso, mesmo que isso fosse assim, durante a tua vida não quiseram saber, agora estão presentes. Bem lhes disse que não viessem. é um risco, pessoas já com idade.

Dou-me conta de que te vou telefonar, de que o tenho de fazer. Mas não. Ficamos ali na indecisão e adormecemos num vazio.

Os dias passam, a dor fica mais leve, mas continua. Continuará, presumo.

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