embaralhado


Estava para desabafar. E não era um desabafo qualquer. Quando não se tem o amigo isso é uma tarefa impossivel. Não, não era um simples desabafo, mas um desabafo fundo, já para além do desespero. Embaralhado com a minha miséria aproximei-me e não sei porquê perguntei-lhe o que é que andava a dar de comer aos robalos. Sardinha congelada mas, eles gostavam mais de caranguejo. Surpreendeu-me com uma voz viva de quem também tinha falta do mesmo, falar, explodir. Falar mal desta vida, ter que ser assim. Ralhar. Reclamar, mesmo que em vão. Porque é que os nossos, que nunca iriam para lado nenhum, eram assim há tempo eterno, manter-se-iam assim mesmo, e partiram, um atrás do outro.

Ele estava no mesmo, desabafar também. Mas não seria tanto como eu, achei. Vivo, era bem melhor. Desculpe, vivo, vivo o quê? O caranguejo. É melhor vivo. Ah, desculpe, sim, sim, não ligue. Desculpe. Abanou a cabeça e sacudiu a mão querendo dizer que não tinha mal. Há quem lhe dê camarão, mas agora não está na época dele, não gosto desses das piscinas, a comer farinha, é o que há, tá a ver, mas já apanhei dois, o jantar vai ser robalo grelhado.

Sentei-me numa pedra ao lado, surpreendido pela alegria como falava. Anda a passear. Sim, a ver o mar. Acalma. As coisas estão escuras por estes dias. Aí, aí, a quem o diz, a quem o diz. O silêncio ficou ali entrecortado com o mar imenso. Tem que arranjar uma cana para vir falar com o mar. Aqui esqueço a vida. Fica tudo para lá da ponte. Nunca pesquei nem cacei, disse-lhe. Eu também não caço, é muito caro, caça não há, nem aqui, nem em lado nenhum, só se for no quintal do vizinho. Riu-se. Era mais fácil, continuei. Aqui pomos o isco, lançamos a chumbada. Ligamo à Terra. Isso mesmo.

Só lhe vi pobreza, miséria mesmo, vestido com uma roupalha qualquer, mudo e de cara seca, triste, rancorosa mesmo, os olhos vazios. Bem, as coisas mudam. Aqui em volta não havia nada, chegávamos de bicicleta e mergulhávamos no mar. Agora, tudo mudou. É depressa demais, agora é prédios e prédios, e bares para turista. Tudo muda depressa demais. Ouça, enquanto dava um volta no molinete e mexia a cana, não fosse algum pegar, ia dizer, era rapaz, vinha com o meu aqui e nem caminho havia. Tá a ver. Nem para bicicleta, quanto mais carro. Era mato por todo o lado. Fizeram estes prédios todos em menos de dez anos, chegávamos aqui num barquito  do meu pai. Ninguém tinha bicicleta. Os ricos tinham carro, nós andávamos a pé. A minha primeira bicicleta, já era homem, vendi uma carrada de couves, o meu pai deu-me esse dinheiro, “já és um homem, vai lá comprar uma bicicleta.” Eu não lhe falava de outra coisa. Havia de dar a volta ao mundo encavalitado numa. E agora que havia de ter sossego, já entrei na reforma. Miserável. Miserável. Mas pronto é melhor do que nada. É a vida. Já dizia o outro.

Veio o mar outra vez e apagou a conversa. A minha família vai-se calando.  Os amigos também, a minha avó com quem falava faleceu. Tudo muda e parece que já não percebemos que mundo é este. Verdade, verdade. Isso da avó. Os meus pêsames. É a vida crua. Andam p’rai a inventar uma máquinas que fazem tudo, e um dia uma gajo quer trabalho e viste-lo. O meu pai que deus tem, ajustava dez mulheres para cavar a terra, uma semana. Eu… Agora não… Mas quando amanhava, chamava o trator e num dia fica tudo feito. Isso da maquina não é coisa boa, e não vai melhorar com os computadores e a internet e o diabo a sete. Eu… eu cá prefiro a cana, o barquito, que o meu pai deixou, e a rede. Os pés na Terra, tá a ver? Bem sei.

Eu trabalho com tecnologias. Informática? Sim, sim. Até as famílias andam à pressa. Isso, já não há família. Os filhos despejam os pais em casa alheia e nem os visitam. Também sei disse-lhe. O meu, quem me ensinou tudo isto, morreu em minha casa, aos meus braços, e abraçado disse “não me deixes morrer”.  Eu pensei, se eu pudesse pai, não me morrias, não. É só lhe disse está bem está tudo bem, vai ficar bem, isso é uma impressão.

Quem procurava um ouvido acabou por dar o seu.

Continuou dizendo que a mulher tem alzheimer, uma dessas doenças modernas, o filho voltou para casa, com a mulher e o filho. Ficou sem uma mão num acidente. Bem procura trabalho. A mulher não faz nada, não pode, coitada. Ia tocando na linha e puxando o fio com o molinete não fosse um peixe esquecido estar seguro. Sentou-se e não disse mais nada.

Boa tarde. Boa pesca.

Obrigado.

Fui. Chorando por dentro continuei e não despertei, fiquei calado com a miséria deste homem que pesca para comer e para esquecer, por poucas horas, a miséria que lhe vai chegar pela frente, mas afronta-a e vive com ela. E tu, faz o mesmo!

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