a viagem


À presença da Natureza, sincera e objectiva, contraponho a gargalhada humana, escrava da hipocrisia.

Lá fora a Natureza acompanha-me por inteiro, até à alma e o corpo mole; o cinzento enche as ruas, as calhas transbordam, e nem as janelas se podem abrir, tanta chuva tocada a vento, vento que assobia frinchas adentro e a tempestade não arreda, agudiza-se mais ainda. As janelas cobertas por colunas pequenas de água, vidro abaixo, espirrando, não deixam ver o que quer que seja. Olho-me. Raiva e ódio sinto, sorriso hipócrita, face opaca que teima em ficar, são meus, este corpo e esta face nesse espelho, e o espírito, as fraquezas também não se vêem… tudo! Porque haviam de ser meus? Na lama, é onde vivo… como se um caixão me adornasse a forma do corpo, crispado por dentro. Não se esqueçam (falo para ti), estamos comprometidos com um caminho único, não sabemos qual é, nem está determinado e que só a aparente diversidade de escolha pode justificar alegria.

O Fraco, Franz E., 2ª parte, p.17

http://ofraco.wordpress.com/

11 thoughts on “a viagem

  1. Sei que em seus escritos está presente a ficção, por isso tento não me preocupar tanto com você, o autor. Mas… o que eu gostaria de dizer-lhe neste momento é que adoro esses flocos de neve caindo nas páginas do seu blogue! São lindos, Franz E.. Parabéns.

    1. A Maria não deu opinão sobre a escrita. É ficção de facto. Ninguém que escreva escapa ao sinal autobiográfico. Mas isso quer-se tão fora quanto possível. Mas está sempre dentro.

      1. Realmente, eu não opinei porque meu comentário poderia ser mórbido, preferi não ser indelicada, Franz E. Uma pergunta: você (distraidamente) desativou os flocos de neve, Franz E.? Me encantam.

      2. Expressei-me mal. Referia-me ao seu estado!
        Enfim,… assimilar a morte do pai, mimar a mãe, cuidarmos da avó doente de Alzheimer… Desculpe!
        Relativamente ao que escreveu acerca da relação escritor e respetiva obra, ainda que a minha área seja científica, entendo perfeitamente. Aliás, já o entendia. Foi mesmo lapso meu, pelo qual volto a pedir desculpa.

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